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domingo, 10 de outubro de 2010

O passado que contarei

"E no entanto é preciso cantar. Mais que nunca é preciso cantar. É preciso cantar e alegrar a cidade. A tristeza que a gente tem qualquer dia vai se acabar, todos vão sorrir, voltou a esperança, é o povo que dança contente da vida, feliz a cantar."
(Vinicius de Moraes e Carlos Lyra).

Sabe, meu jovem amigo, essa canção me faz lembrar aquele momento difícil por que passamos antes de chegarmos até aqui. Muitos de vocês que cá estão nem mesmo eram nascidos, mas eu e uma turma de camaradas sabemos bem e jamais esqueceremos, porque a consciência, ao passo que nos faz crescer, tem também o poder de nos trazer a tristeza e o sofrimento. E foram esses os sentimentos que dividiram lugar com tantos outros em nossos corações.

Naquele tempo, o governo, que deveria cuidar das pessoas e reconhecê-las como protagonistas de um processo de mudança fortemente anunciado e igualmente esperado, foi o mesmo que cortou verbas de setores fundamentais à vida e ao desenvolvimento humano, como a saúde e a educação, que criminalizou os que por direitos lutaram, e que teve na pobreza uma verdadeira fonte inesgotável do enriquecimento de uma minoria.

Vi uma cidade linda que amei como se fosse minha, eleger e sucumbir nas mãos de um prefeito que, quase três décadas antes, fora o mesmo que fizera uso da polícia para perseguir e reprimir estudantes em manifestação, assim como vi, dois anos mais tarde, um estado desacreditar na esperança ao ver eleitos governantes corruptos ou mesmo assassinos, e com a ajuda de um governo que de esquerda se dizia, mas que fez reviver uma verdadeira oligarquia.

A concentração de terras e riquezas, os altos preços da farinha, do leite, da carne, do feijão e do pão, as crianças e pessoas em situação de rua, a opressão vivida por mulheres, negros, homossexuais e índios, a alta tarifa e a péssima qualidade do transporte público, os tantos casos de descaso nos serviços de saúde, a falta de democracia nos meios de comunicação, a falta de segurança que, quando não tomava de assalto o trabalhador morador de periferia, o prendia, o espancava ou o matava porque lhe entendia como inimigo, e mais ainda, a relação entre tudo isso e a política, foi fazendo despertar, pouco a pouco, a população para a necessidade de um levante.

É bem verdade que tudo isso demorou bastante, uma vez que o processo de construção de uma consciência verdadeiramente crítica demanda tempo, sobretudo quando o mundo inteiro gritava, e o tempo todo, que aquele estado de caos sempre existira e que era natural que daquela forma fosse. Por isso, a cada homem e mulher que acreditava na possibilidade de uma transformação radical da sociedade, foi preciso se doar incondicionalmente. E assim fizemos.

Estudantes e trabalhadores compreendemos que nossa tarefa militante e nosso papel naquele momento precisavam ser de desconstrução de uma ideologia e formação de um pensamento novo, mas não único, porque era necessário que o conflito existisse para que o conhecimento enfim se fizesse. Às massas, coube o convencimento de que mobilizar-se precisava estar para além de um período eleitoral e que, principalmente, as revoluções deveriam ser permanentes.

E cada roda de amigos, cada mesa, fosse ela de bar ou de jantar, cada sala de aula ou de casa, cada rua, cada campo, cada fábrica, cada chão encheu-se de vida e passou então a ser reconhecido como espaço de aprendizado, de trocas de conhecimento, do mesmo modo que passou a se compreender que cada pessoa, independentemente de sua condição, credo ou nível de instrução, era também produtora de sentido. Era preciso transformar a estrutura social, econômica e política do país inteiro, mas era também preciso transformar valores.

Assim, cada um colaborou a seu modo, colaborou com o que de melhor sabia fazer, mas esforçando-se também para aprender aquilo que o outro fazia, e que tinha importância. Então, a resistência deixou de ser foco e passou a se alastrar e, de forma paciente, a mudança começou a acontecer. A indignação voltou a ser sentida. Era preciso trabalhar e ir às ruas reivindicar. Era preciso conquistar e distribuir o poder. Era preciso cantar, escrever poesias, crônicas, contar piadas. Era preciso fazer renascer a esperança e a alegria.

Para muitos, é claro, isso tudo não passava de sonho, romantismo, utopia, loucura. Mas, subvertemos. Lembras que te disse, no início desta conversa, que a tristeza e o sofrimento trazidos pela consciência dividiam lugar com tantos outros sentimentos em nossos corações? Pois sim, entre eles estava o amor a nossa classe e foi ele o que nos moveu. Com a revolução, o verbo amar, até então em desuso, voltou a ser conjugado e o amor, mais que sentimento, virou uma prática. Voltamos a abraçar, a beijar, a festejar, a sorrir.

E é por isso, meu jovem amigo, que embora tenham sido de tristezas aquele tempo que vivemos, são boas as lembranças que me trazem essa canção, porque já muito antes dali ela falava de uma transformação e de uma mudança que acreditávamos ser possível e que lutamos para fazê-la acontecer, mesmo quando acreditamos que poderíamos não vê-la. Hoje aquele tempo não passa de lembrança ruim. É passado. Hoje somos verdadeiramente felizes.

domingo, 19 de setembro de 2010

A pergunta que não fiz

Enquanto o Maranhão apresenta um dos maiores índices de mortalidade infantil e os piores índices de educação do país, existe um governo que insiste, tanto em nível nacional, como estadual, em anunciar que a condição de vida do maranhense nunca esteve tão bem e que o que se deveria mesmo fazer era respirar a brisa de uma suposta tranquilidade ou, quem sabe até, comemorar.

Fala-se, com muito entusiasmo, da ampliação do acesso ao ensino superior, atribuindo-se toda honra a programas como o Prouni e o Reuni, furtando-se, porém, de deixar claro à sociedade que, no primeiro caso, a verba utilizada para o pagamento de vagas nas faculdades particulares é a mesma que falta na universidade pública e que impede que o direito à educação pública e gratuita seja garantido a todas as pessoas, sem a perda da qualidade.

Fala-se em ampliação do acesso ao ensino superior sem se debater a necessidade de implementação de políticas de ações afirmativas que garantam que adolescentes e jovens, sobretudo negros e pobres residentes em nossas periferias, tenham não somente acesso, mas sobretudo condições objetivas de permanência na universidade, não precisando abrir mão de sua formação sob pena de sua própria sobrevivência.

No caso do Reuni, em especial, o que pudemos observar foi que a implementação deste programa ocorreu de forma impositiva, sem respeito a autonomia da universidade e, o que foi ainda mais grave, sem o mínimo de debate com a comunidade acadêmica e a sociedade em geral, e uma, entre tantas provas deste fato, foi a mais recente adesão ao Enem como única forma de ingresso à universidade federal, o que tem causado muito descontentamento.

Nesse sentido, gostaria de perguntar aos presentes candidatos, sobretudo aos que não expressaram aqui e nem nunca expressarão em seus projetos de governo a necessidade e, principalmente, uma vontade real de transformação social, até quando nós, adolescentes e jovens, pegaremos carona na implementação de políticas públicas que nos dizem respeito, sem que nosso protagonismo e nossa capacidade de debate e organização sejam, de fato, considerados.

*Intervenção elaborada por mim durante a audiência pública realizada na última quarta-feira (15) com os candidatos ao governo do estado para assinatura do termo de compromisso pelos direitos da infância e adolescência. Marcos Silva (Pstu), Saulo Arcangeli (PSol), Flávio Dino (PC do B) e, mais tarde, Josivaldo Corrêa (PCB), fizeram-se presentes, enquanto Jackson Lago (PDT) foi representado por sua esposa, Clay Lago, e Roseana Sarney (PMDB) por seu vice, Washington Luís (PT).

Importante destacar que a ausência da candidata e atual governadora do Maranhão não nos foi nenhuma grande surpresa, uma vez que há tempos a não participação em debates já havia sido anunciada. Atribuido a este e, entre tantos outros fatores, ao grande número de adolescentes que manifestou vontade de expressar suas inquietudes na ocasião, optei por compartilhar em outro momento a pergunta que eu muito queria, mas que infelizmente não fiz.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Voltar à terra é preciso

A fuga dos domingos para uma manhã de quarta-feira vem para expressar a necessidade nossa de voltar à terra. Voltar à terra é preciso porque ela, chão, piso ou palco das mais variadas manifestações, é elemento presente de nossa história e de nossa organização em sociedade, porque ela, se entendida como natureza, constitui-se fonte dos valores de uso e de nossa própria vida.

Voltar à terra é preciso porque nela toda produção material ou simbólica se organiza, porque ela concentrada reduz a poucos não somente a riqueza expressa na economia, mas em todos os outros direitos não garantidos, como a cultura, a igualdade, a moradia, a formação, a organização e, principalmente, a participação, o reconhecimento, e mesmo a vida em liberdade.

Por isso, o direito à terra deve ser garantido a todos nós. Nós, os expropriados do planeta; nós, os exilados das sementes; nós, os apartados dos frutos; os operários sem fábrica, os camponeses sem chão, como nos dizeres de Mauro Iasi ou de Milton Santos ao expressar a terra como “teatro obrigatório da ação”, como o meio onde a existência humana é tornada possível.

É então por entender que sem terra somos todos nós, que faço destas palavras um convite ao voto pelo “sim” durante o plebiscito popular pelo limite da propriedade da terra que tem início neste dia 1º e segue até 7 de setembro em todo país. Informa-te sobre os pontos de votação e sobre esta grande campanha que expressa uma luta ainda maior, como o tamanho da precisão daquilo que nos é necessidade.

domingo, 22 de agosto de 2010

É tempo de partido

Quando chegar o tempo em que eu puser-me a falar de partido, haverá quem pergunte se falo do coração.

Responderei então, com o mesmo tom tranquilo que minha voz costuma ter, que sim. Falo do coração, porque afinal, falo de lutas, falo de sentimentos e falo, principalmente, de necessidades reais que eu e minha classe temos cotidianamente. E falar do coração deve ser motivo de orgulho porque pulsam em nossas veias as cores da revolução quando são de amor os sentimentos que nos movem.

Ao longo de uma estrada que me pus a trilhar nos últimos cinco anos, experienciar novas relações como a construção de um coletivo, a militância no movimento estudantil e as caminhadas junto aos movimentos sociais, fizeram-me vislumbrar a transformação e a vitória como possibilidades e a luta e a organização como necessidades.

E quando organizar-se faz-se necessidade e a consciência avança para níveis bastante distantes de onde um dia esteve, reconhece-se a importância de sair em defesa de um sistema de reivindicações transitórias entendendo que estas fazem parte da construção de um projeto mais amplo de sociedade.

Assim, encontrei um partido que defende um programa socialista para a educação, a saúde, a moradia, que trata a destruição ambiental e as opressões de machismo, racismo e homofobia como questões a serem combatidas, que fala sobre a necessidade de redução da jornada de trabalho e que entende a juventude e os trabalhadores como protagonistas no processo de transformação.

Encontrei-me em um espaço onde a solidão para atuar não mais há porque companheiras e companheiros fizeram-se camaradas, porque os vazios fizeram-se presenças e as necessidades de formação e de atuação vêm sendo supridas dia após dia em companhia daqueles que têm o centralismo democrático como sinônimo de confiança, disciplina e, sobretudo, coerência.

Fizeste-me ver a claridade do mundo e como é possível a alegria.
Fizeste-me indestrutível pois contigo não termino em mim próprio". (Ao meu partido, Pablo Neruda)

Quando lembrei-me que Pablo Neruda havia dedicado ao seu partido estas palavras, senti uma igual vontade de expressá-las ao organismo de que hoje faço parte. E assim, uma vez que a vontade fez-se necessidade, devo então dizer, de coração inteiro, que o tempo de partido é enfim chegado.

*Ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (Pstu) pelo tempo de aspirância e início de minha nova militância.

domingo, 8 de agosto de 2010

Por que usar óculos durante as manhãs

Acordei às 6h, tomei banho e café e segui sem óculos para o trabalho porque sempre acreditei que são mais simpáticas as pessoas que não usam óculos durante as primeiras horas do dia, ainda que elas sejam míopes, que não cumprimentem as pessoas por não tê-las reconhecido, que percam alguns ônibus por não terem conseguido ler letreiros ou outras coisas parecidas.

Em lá chegando, abri a porta de minha sala e, ainda sem óculos, pus em prática tudo aquilo que um tímido que se preza ensaia diariamente durante seu percurso para que tenha a completa certeza de que as coisas acontecerão de forma natural: um sorriso largo, porém discreto; um bom dia animado; uma caminhada de uma ponta à outra até a geladeira; um copo com água.

Eu estava mandando muito bem, até que uma colega de trabalho me chamou até a porta e comentou com voz de discrição: - Ei. Fomos roubados na noite passada. Serraram a grade, quebraram o vidro da janela, entraram na sala e levaram todos os nossos monitores de LCD. Abri a porta novamente e, em um piscar de olhos, a cena estava exatamente ali, completamente montada.

Os cacos de vidro no chão, as grades retorcidas da janela, as pegadas empoeiradas sobre o estofado da cadeira, aquele vazio de monitores ausentes sobre a bancada, minhas digitais na geladeira, aquela piada que eu e uma amiga fizemos quando nossas bolsas tiveram atraso no depósito, a forma como meus olhos passeavam pelo livro que eu fingia ler enquanto a polícia federal vistoriava o local, tudo levava a crer que eu era a maior suspeita.

Mas era claro que eu não era.

Depois daquele, na Universidade Federal do Maranhão aconteceram tantos outros roubos e mesmo assaltos que muitos de nós talvez só teremos conhecimento quando a administração superior ordenar aos trabalhadores de sua assessoria que o divulguem para então justificar seus planos de segurança armada, catracas eletrônicas e fechamento dos portões que dão acesso às comunidades vizinhas, como o Sá Viana e a Vila Embratel.

Na Ufma, não se fala em concurso público para substituição de uma segurança feita de forma terceirizada que serve para intimidar estudantes em reivindicação e trabalhadores que fazem o trajeto pelo campus porque não podem pagar o valor cobrado pelo transporte público, mas que em contrapartida não consegue arcar nem mesmo com o seu principal, porém absurdo objetivo, o de proteger o patrimônio físico da Universidade.

Eu não queria, mas já há algum tempo voltei a usar óculos às primeiras horas da manhã. Fez-se necessário.

sábado, 27 de setembro de 2008

A letra A

Foto-missão
dirigida por Paula Camily
e clicada por Jane Maciel

E naquela foto amarelada, encontrada em um livro já derrotado por um por pouco não sangrento massacre de traças, estavam lá representadas todas elas, letras charmosamente pomposas, artigos muito bem definidos e sempre tão presentes, mesmo para aqueles que fazem da vida um verdadeiro exercício de constante desligamento e pura desatenção.
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A letra A nada mais era que a menina em seu vestido antigo, nada curto, mas não tão comprido... Era o escorregador posto no meio daquele parquinho que só depois de grandes descobrimos o quanto era pequeno... Era a capelinha bem simples e calorenta onde os moradores passavam as tardes de sábado em oração ou a bonita torre Eiffel, construída para honrar o centenário da Revolução Francesa em 1889.
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Caminhando um pouquinho mais no tempo, tínhamos nos bolachões um lado A repleto de belas canções e saudosos ruídos, verdadeiras músicas aos ouvidos. E já que falei em música, como não lembrar das palavras de Nando Reis ao ordenar o abrir a porta e o entrar de alguém que tem em seu nome a letra A?
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Nas leituras que fiz sobre a letra A, descobri que esta, além de ser a primeira na maioria dos alfabetos, caracteriza-se por exprimir inúmeras relações entre palavras e substituir outras preposições. Um verdadeiro ícone da diversidade!
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Importante ressaltar que esse destaque não se dá somente no campo das letras, já que podemos citar como exemplos a Matemática, e sua representação de uma quantidade variável conhecida; a Física, e sua presença enquanto símbolo de aceleração; ou ainda a Astronomia, quando a letra é utilizada para indicar a principal estrela de uma constelação.
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O engraçado é que aqueles que me vêem falando assim, nem imaginam o quanto as aulas de Português eram as indesejadas de minhas horas. Para se ter uma idéia, uma vez fui pega em flagrante pela professora enquanto simulava seu assassinato com uma grafite. Ao perceber que ela me olhava, ainda tentei disfarçar fingindo que aqueles movimentos nada mais eram que a verificação da falta de ponta na tal lapiseira.
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Mas voltando o foco a ela, tenho a impressão de que o que acontece com a letra A transita em dois extremos, um que beira o descaso e outro, por que não dizer, o verdadeiro temor. Sim, de tão temida a letra é seqüestrada. Dá-se a ela um sumiço. E as pessoas? Ah, essas nem notam. Ou alguém saberia me dizer o que foi que fizeram com a letra A que deveria estar junto às letras U, F e M lá na entrada da universidade?
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Fico aqui pensando com os meus botões... Se o mesmo Reuni que fez aumentar 476 vagas no vestibular deste ano em relação ao de 2007 não prevê a contratação de professores ou a ampliação dos quadros técnicos e da estrutura física da universidade, o que dizer sobre a confecção da letra A para estampar a sua entrada? As pessoas diriam que era supérfluo.
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Talvez o magnífico reitor ou a maioria de seus estudantes nem percebam que a letra A é uma questão de identidade. Sou de defender que se Stuart Hall, um verdadeiro entendedor das identidades culturais, tivesse que de forma sábia proferir algo sobre esta fabulosa letra, certamente teriam sido essas as suas palavras. E quanto à vida da letra A? Esta é um combate.

sábado, 13 de setembro de 2008

Ganhei dinheiro na prisão

E não havia mais como pagar as tantas contas que de tanto chegar já sobravam na gaveta da cômoda que ocupava o canto daquele quarto tão pequeno. Em toda a cidade, a crise não se fazia esconder de um par de olhos sequer e a prova disto estava nos tantos barracos feitos de madeira e papelão que serviam de abrigos a famílias inteiras.
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O que talvez ninguém conseguia imaginar era que havia um casal que, mesmo tão preocupado e sofrido por conta da crise, conseguia tirar de bem pouco, momentos de grande felicidade. E sob o céu de estrelas que para muitos servia de teto, todas as noites eles brincavam de ser ricos.
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Em papel, Charles desenhou notas de mentira para que ele e sua esposa pudessem brincar de comprar e vender propriedades e se arriscar no mercado imobiliário norte-americano. Compravam ruas, avenidas, bairros inteiros. Construíam casas e hotéis e viravam os verdadeiros donos da cidade!
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E foi assim, brincando de ser feliz, com notas de mentira e uma toalha de mesa xadrez, que Charles Darrow, um desempregado vendedor de sistemas de aquecimento, falido após a quebra da bolsa de 1929, criou um dos mais populares jogos de tabuleiro, o Banco Imobiliário.
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Um dia desses, um amigo militante reclamava em tom choroso a falta de sorte no jogo. “Descobri que não dou certo para burguês”. Disse-me ele. “Nem eu”. Respondi quase que sem pensar. Ele me contava que havia acabado de falir em uma partida de Banco Imobiliário após ter assistido, literalmente sentado, ao verdadeiro monopólio construído por sua mãe.
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Passada a empolgação e toda a lerdeza de minha conexão discada, começamos a conversar. Por conta de uma série de ideologias, quase tropeço nas teclas para lhe confessar que gostava daquele jogo tão capitalista. Foi então que descobri que a partir de sua angústia, havia eu encontrado explicações revolucionárias para o feito!
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Chegamos à conclusão que independentemente da sorte no amor, para se dar bem no jogo nessas circunstâncias, é preciso fazer como Charles e Ester, só que de forma ideologicamente contrária. Nos colocamos então a imaginar uma realidade diferente daquela que está posta.
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Nessa nova realidade, agora vermelha e bem mais popular, os terrenos comprados servirão para fazer a reforma agrária e construir casas populares, já as empresas e companhias serão todas estatizadas. Ocuparemos fábricas, rádios e canais de televisão. Enfrentaremos a polícia e derrubaremos os ditadores.
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Será um jogo todo jogado de forma coletiva, como as “sociedades” que já ouvi outra amiga (também viciada na prática), comentar, “só que de forma ideologicamente contrária”. Sendo assim, se antes o alvo era monopolizar, de agora em diante, o objetivo é fazer a revolução. Pregaremos o desenvolvimento de uma comunidade pautada no socialismo e a cada casa avançada, a cada conquista, ganha-se militantes.
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Convertemos o jogo para a lógica da luta. Nos momentos de interação dos encontros estudantis ou no intervalo das aulas das escolas, as cartas de Uno dariam lugar ao novo entretenimento. Mas, também, não sejamos tão otimistas, nunca se sabe. Pode haver pessoas jogando o nosso jogo “só que de forma ideologicamente contrária”. E aí, o que faremos?
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Ah, mas eles podem, também. Aprendi, com essa história toda, que todo mundo tem o direito de ser feliz, ou pelo menos brincar de ser. Um dia desses, eu fiquei apenas com uma nota de “1 dinheiro”. Todos os meus amigos de 19 anos, ou menos que isso, sorriam de mim. Mas, não me deixei abater e aprendi que em Banco Imobiliário, quando não se tem dinheiro, a melhor saída é ir para a cadeia.
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E foi assim que dei a volta por cima e fiquei rica. Foi assim que ganhei dinheiro na prisão. Fiquei respeitadíssima na mesa, e não mais por conta dos meus vinte e um anos. Não que eu tenha sido respeitada alguma vez por conta disso, mas esta parte prefiro não comentar. Finalizarei apenas a dizer que foi um verdadeiro sucesso! E então, alguém aceita, gentilmente, o convite para uma partida?

sábado, 23 de agosto de 2008

Nossos ritos, minhas passagens

Faz metade de um ano que queimei aquele navio. Lembro-me da noite estrelada, do gramado molhado de sereno, da fogueira alaranjada, dos pulsos firmes, dos olhos úmidos e das mãos dadas a expressar a angústia de quase cem corações. Havíamos chegado ao final.
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Minutos antes, projetaram na parede do lado de fora do convento algumas fotos de todos daqueles vinte e três longos dias de toda a nossa vivência. Foram dias inesquecíveis. Em pensar que de início éramos apenas desconhecidos. Alguém vindo de alguma parte de Minas, do Brasil ou da América Latina em busca de uma experiência revolucionária. De algo transformador.
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E assim o foi. Dos sete dias de preparação, dos doze dias de vivência em acampamentos, pré-assentamentos ou assentamentos do MST, e dos cinco últimos dias correspondentes à fase de retomada, o último foi o mais doído. Todas aquelas lembranças, todos aqueles sentimentos.
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Se antes tínhamos conhecimento por meio dos livros de tamanha a opressão e as injustiças por que os movimentos sociais e populares passam, agora as marcas disso estavam minimamente expressas em nossos arranhões, picadas, calos e queimaduras de sol.
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Um arrepio imenso foi surgindo. Não havia como passar por tudo aquilo e ser simplesmente a mesma pessoa depois. Estávamos ali, de mãos dadas, quase que abraçados e a chorar. Uma fogueira, um barco de papel, um cesto de fitinhas vermelhas, a cor da revolução.
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Conta a História que na época do descobrimento das terras, um grande conquistador, ao aportar na América do Sul ordenou que seus homens ateassem fogo em seus navios para que não fossem traídos por suas próprias fraquezas e desistissem da luta para retornar às suas origens.
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As pessoas caminhavam pegavam um pouco de fogo na fogueira, ateavam no barquinho e diziam o que elas queimavam. “Eu queimo os pelegos!” Gritou um rapaz. “Eu queimo os burgueses!”, outro. “Eu queimo o capitalismo”. Eu queimei as opressões.
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Então, caminhavam até o cestinho de fita, pegavam uma e diziam o que plantavam. “Eu planto o socialismo!”. Falou uma menina em tom de ordenamento. “Eu planto uma sociedade mais justa!”, ouvi outro alguém dizer. Eu plantei a alegria. Uma genuína alegria. Uma alegria em forma de respeito, de companheirismo, de alegria, de felicidade.
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Aquele nada mais era que um dos muitos ritos de passagem por que cruzamos durante a vida. Diz-se de tais ritos que costumam ser preparações individuais ou coletivas que visam marcar pontos de desprendimento, o abandono de velhas atitudes e preparar para outras vivências, novas aceitações, em outras palavras, uma nova sociedade.
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Ali foi encerrado um ciclo e, ao mesmo tempo em que foi um final, foi também o começo, afinal, princípio e fim estão bem mais envolvidos do que muita gente pensa, tanto que muitas vezes é difícil saber onde um nasce para dar lugar ao outro.
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Na segunda-feira desta semana tentei fazer a mesma mística de queimar navios com os novos estudantes de Comunicação. Mesmo as pessoas todas tão desconfiadas, cheias de angústias e, mais ainda, medo de tocar umas às outras, ainda que fosse um segurar de mão somente, aquela ocasião teve para mim um sabor especial. Para eles, o começo. Para mim, talvez um fim.
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Recepcionei muitas turmas. Umas quatro ou cinco, pelo menos. E aquela idéia de que aquela seria a última foi me deixando com um nó na garganta. A semana passou e ontem, na sexta-feira, fiquei vendo os novos amigos que fiz nesse tempo de caminhada e o quanto me apeguei a eles.
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Após pedir moedas no corredor, fomos ao mercado central negociar os ingredientes para aquele o ponche. Será o último? Cada coisa parecia tão única. Cada detalhe. As ruas, os risos, as pessoas, os sorrisos. Ainda não consegui me acostumar com a idéia de ter que ir à Ufma apenas algumas vezes por conta de minhas novas atividades.
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Sentei no chão, no escuro e ao som da banda. Respirei fundo e pensei que talvez, se o carro não tivesse ar-condicionado e a janela do carro estivesse aberta enquanto fazíamos o caminho para o mercado, eu poderia ter falado do cheiro da maré do Bacanga ou da brisa do início de fim de tarde e assim, quem sabe, essa história tivesse ganhado um tom mais poético.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Não tem ninguém ao lado

Poucas ou mesmo nenhuma vez o fato de acordar e não ter ninguém ao lado fez tanto sentido como em minha madrugada fria de dois domingos atrás. Voltando um pouco no tempo, alguns dias antes, se atravesso o chão azul da sala e sigo até a janela imediatamente oposta à parede onde se encontra meu espremido saco de dormir, tenho como prêmio a tão bela vista para a Baía de Guanabara.
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Afirmo ser um prêmio porque quando se está na extrema esquerda de um alojamento que tem sua porta localizada à direita, e quando todo o espaço interno é ocupado por uma infinidade unicolor de colchões infláveis, atravessar a sala pode ser uma tarefa árdua. É por essas e outras razões que costumo dizer que já não se fazem mais encontros como antigamente.
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Pensando bem, já nem sei se são os encontros que já não são mais feitos como nos velhos tempos. Talvez o problema todo esteja mesmo nos encontristas. Tenho saudade de quando os alojamentos tinham cores que não somente o azul, assim como sinto falta dos tempos em que os estudantes tinham um compromisso, mesmo que mínimo, e eram conscientes de seu papel dentro dos encontros.
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As fábricas de colchões infláveis podem, em breve, começar a produzir colchões de cores diferentes, a não ser que exista uma explicação científica para que eles sejam todos da cor azul. Mas, e as “fábricas” para encontristas diferentes dos que vemos hoje, será que existem? Será que as verei?
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Estávamos no 29º Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação, em Niterói, Rio de Janeiro. Estávamos? Quem estava? Antes do encontro, os estudantes reclamavam ou mesmo clamavam para que entre os painéis, mini-cursos, oficinas, núcleos de vivência, grupos de discussão, estudo e trabalho, os tão falados espaços “lúdicos” fossem garantidos.
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E foram! Aos montes. Diria até que nunca vi tantos. Tivemos até, em nossa grade, o chamado “turiscom”. Mas ainda assim, mesmo com tanto divertimento garantido, o que vi foi um grande descomprometimento das delegações da maioria dos estados. Ah, mas eu não posso querer muito, afinal, não dá para competir com o Rio, não é? Por que eu, estudante de co-mu-ni-ca-ção, vou ficar discutindo co-um-ni-ca-ção, se posso ir ao Pão de Açúcar, ao Cristo Redentor, ao Jardim Botânico, à Lapa ou mesmo assistir um jogo no Maracanã?
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Apesar disso, o encontro teve muita coisa boa. Para entender um pouco, a Enecos, nossa Executiva de Curso, estava há um ano e meio sendo coordenada por comissões gestoras. A primeira comissão foi formada em nosso Congresso Brasileiro, em janeiro de 2007 em São Paulo, e a segunda em janeiro deste ano, em Maceió.
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No entanto, esta estrutura nos trouxe uma série de problemas, uma vez que os estudantes que compunham (por auto-indicação) tais comissões, não tinham entre si um planejamento mínimo de gestão. Além disso, não existiu um projeto político comum que trouxesse a consistência necessária aos debates que deveriam nortear nossas ações enquanto estudantes organizados em uma Executiva.
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Nesse sentido tivemos alguns consideráveis avanços. O Enecom serviu para se pensar, discutir e planejar novas atividades para a Enecos para os próximos períodos. Nos espaços, apesar de poucos, os novos estudantes participaram bastante e se comprometeram de tal forma que já podemos notar trabalho em algumas de nossas tantas listas de discussão.
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Além do mais, aproveitei a oportunidade para rever a família, abraçar apertado alguns dos meus bons e saudosos amigos, reviver antigos sentimentos e experimentar novas sensações, como um encontro inesperado no banheiro durante uma madrugada, deitar na grama, admirar o céu e pegar sol depois do almoço ou matar o final de uma roda de diálogo para ver, do corredor do andar de número 3 do bloco “N”, o pôr do sol alaranjado do Gragoatá.
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A parte sentimental da minha saga foi o frio que fez nos dois últimos dias. Principalmente no último. Lembro-me daquele burlesco conselho de centros e diretórios acadêmicos, aquele em que o cantor de um grupo de samba pegou o microfone para dizer que não estávamos com nada. Lembro-me, também, das cobranças que fiz... Da figurinha de chocolate que ganhei... De meu rosto, mãos e pés bem gelados... E de minhas (até então não sabidas) últimas palavras ao sair da tenda à procura de um pouco de calor no alojamento... Dormi.
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Só eu sei o susto que levei quando dei por mim, às 4h de uma madrugada fria, no cantinho mais apertado daquele alojamento. Na rapidez que virei para o lado, meu coração disparado e já em mil pedaços parecia querer encontrar alguém. Vários “alguéns”. Meus amigos estavam com saídas marcadas para as 23h... 2h... 3h... Uma ou outra saída atrasou, então pude me despedir de algumas poucas pessoas... Estou ficando velha, e a cada encontro a despedida fica mais difícil.
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Lágrimas, o fim do encontro chegou... E com ele, os encontristas. Desta vez, para me consolar... São meus amigos... Recolho o meu saco de dormir, que não é azul, e todos os colchões são esvaziados. Estou de volta à minha casa. Alguém tem contato para sugestões de alguma fábrica de colchões infláveis?

domingo, 18 de maio de 2008

68 para ser sentido

Por mais que eu tivesse tentado, nunca consegui explicar com palavras determinados sentimentos. Um frio te toma as pernas, ganha o alto da barriga e enquanto a boca seca, não mais saliva, os olhos se umedecem com lágrimas e os pêlos dos braços e da nuca suspendem como se quisessem saltar do corpo.
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Era assim quando criança: bastava ouvir uma música, assistir um filme ou ler algo relacionado às lutas populares ou revoluções, que todos aqueles sentimentos me vinham com uma força cada vez mais crescente. Foi então quando comecei a me questionar sobre a origem da força e da vontade que algumas pessoas têm em defender determinadas causas.
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Entre todas as possíveis respostas que meus pensamentos trouxeram sobre este questionamento, decidi ficar com aquela que, pelo menos aparentemente, pode ser vista por alguns como a mais simples ou mesmo a mais infantil de todas elas: a da pequena semente.
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Acredito que cada pessoa tenha dentro de si um montão de sementinhas. Estas, por sua vez, precisam tomar sol, serem regadas e bem cuidadas para que cresçam fortes. E um-montão-de-sementinhas são, pelo menos em minha cabeça, uma porção de sentimentos. Por que é então que com o sentimento revolucionário as coisas seriam diferentes? Não tem mesmo por que.
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Manifestações, atos de coragem e de luta por uma coletividade seriam então o sol, a água e os cuidados dessa semente que alguns trazem desde cedo dentro de si, como aqueles jovens estudantes que, há 40 anos, sem distinção de etnias, culturas, idade ou classe, tomaram as ruas do mundo para lutar por direitos, levando o país a uma greve geral.
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O maio, que por muitos é somente lembrado como o mês das queridas mães ou das bonitas noivas, foi também em 1968, um mês marcado por lutas em prol de transformações sociais, culturais e políticas. Foi o mês em que em uma única manhã, mais de um milhão de pessoas foram às ruas de Paris em solidariedade a um movimento estudantil combatente e reprimido por forças policiais francesas.
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Quarenta anos depois, a mesma reforma do ensino superior que serviu para mobilizar os estudantes do maio francês, foi o que pareceu despertar o movimento estudantil brasileiro da inércia vivida nos últimos anos. A diferença? Hoje, somos poucos, fragmentados e muitos até mesmo descrentes de que uma revolução seja realmente possível. Eu sonho e acredito em uma revolução. Precisava falar sobre isso hoje. Gostaria que o maio de 68 pudesse não somente ser lembrado, mas sim, de alguma forma sentido.
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Coincidência ou não, no início do ano em que a mais bonita das revoluções completa suas bodas de rubi, foi quando a sementinha que carrego, desde a infância, dentro do meu coração vermelho, pôde receber a sua maior dose de sol, água e cuidados. Mas, essa parte deixo para contar em outra oportunidade. Por enquanto, termino com a sensação de que realmente não sei falar de sentimentos e com uma frase que penso que expressa muito o que sinto.

"Eu tenho a paixão das causas difíceis, quase perdidas, quase desesperadas." Daniel Bensaïd

domingo, 6 de abril de 2008

Eu-bolinho de arroz

Desde a época da escola me recordo de ouvir meu professor de História dizer que “uma mentira dita dez vezes torna-se verdade”. Talvez isso nem fosse mesmo uma verdade, mas o fato é que ele falou isso tantas vezes e em tantas aulas que acabei internalizando esta teoria. A impressão que eu tinha era que não importava sobre o que ele falasse, se o sistema feudal entrava em crise, se a segunda grande guerra estourava ou mesmo se um branco na mente lhe ocorria, lá estava ela: a frase da verdade, ou da mentira, como preferirem.
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Peraí! Peraí! Como é que é a história, rapaz? Quer dizer que se eu disser uma mentira dez vezes levo a crer a quem a ouve que ela é a mais pura verdade? Bom, eu diria que o número dez, nesse caso, é meramente simbólico. E diria também que não somente uma mentira quando dita, mas qualquer coisa que seja exaustivamente repetida. Se realmente vira verdade ou não, isso é discutível, mas que gruda no cérebro, gruda. Ou que outra explicação posso dar à letras como a do “créu”, “piriguéti”, entre tantas outras coisas que não nos saem da mente?
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E foi assim que voltei da minha última viagem, disposta a assumir a identidade de um bolinho de arroz. Confesso que acordar, tomar café, almoçar, jantar, conhecer pessoas, interagir com elas, participar de espaços de formação, ir às festas, voltar “para casa” e dormir ao som de “Eu sou um bolinho de arroz/Minhas perninhas vieram bem depois/Os meus bracinhos ainda estão por vir/E eu não tenho boquinha pra sorrir/Por que? Por que? Por que?/Porque eu sou um bolinho de arroz...” faz qualquer um ter a convicção de que, no mínimo seu eu - lírico é um bolinho de arroz.
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A música é cantada com muita alegria, mas... Alguém saberia dizer por que o bolinho de arroz, mesmo com seus dentes tão branquinhos, não tem boquinha para sorrir? Talvez porque as perninhas tenham demorado para vir, ou porque os bracinhos ainda são inexistentes. Pode até parecer brincadeira, mas isso me fez pensar sobre toda essa discussão que temos visto sobre permitir ou não que pesquisas sejam feitas por meio da utilização de células-tronco embrionárias.
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A Igreja defende sua postura contrária à permissão alegando que pesquisas como estas sejam um atentado à vida. É válido lembrar que ela própria admite que a vida humana anda de mãos dadas com a vida do cérebro, tanto que a doação de órgãos é legítima a partir do momento que se constata morte cerebral. Então, como dizer que pesquisa com embriões são um atentado à vida quando, nas primeiras semanas, não há nem mesmo um sistema nervoso? Onde tem início a vida? Tomás de Aquino opinava que Deus infundia a alma no sexto mês.
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As células-tronco, também conhecidas como células-mãe, são células que possuem melhor capacidade de se dividir dando origem a outros tecidos do corpo como ossos, nervos, músculos e sangue. Permitir pesquisas desta natureza significa, para a vida de muitas pessoas, uma verdadeira transformação, e para a felicidade. Espero daqui a algum tempo poder ouvir muitas pessoas a cantar, com a mesma ou quem sabe até com mais alegria, que são verdadeiros “bolinhos de arroz” e que já podem sorrir porque já não lhes falta mais nada, ou que, se lhes falta, logo logo o que lhes falta estará por vir.

sábado, 29 de março de 2008

No Maranhão babaçu abunda

E como abunda! Durante o Encontro Regional de Estudantes de Comunicação do Norte e Nordeste 3 – ERECOM – realizado em Teresina, Piauí, quando acordadas naquela manhã ao som deste super hit regional, algumas pessoas pareciam confusas, para não dizer assustadas. A vontade de sorrir, misturava-se, entre outras coisas, a olhinhos remelentos e inquietação sobre a veracidade daquilo que se ouvia: “como assim, o Maranhão baba a minha bunda?”.
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Não gosto de falar sobre bunda. Até mesmo porque se existe alguém com propriedade para falar sobre isso, esse alguém certamente não sou eu. Talvez nunca alguém tenha me ouvido falar esta palavra. Mas me chamou a atenção que, em alguns espaços, não se pode nem mesmo escreve-la. Falar em bunda no word é tabu. A palavra é sublinhada de vermelho e vêm as opções “banda, boda, bomba, bonde, borda”. Como assim, boda e não bunda? E não dá para adicionar ou incluir no dicionário. O word é contra a inclusão da bunda.
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Mas, sejamos mais fortes e superemos este ponto de opressão. Não sou maranhense, mas se tem algo que me fez ter paixão por este estado que me acolheu com tanto carinho, foram suas palmeiras, aquelas onde cantaram, ou ainda cantam, os sabiás de Gonçalves Dias. E são delas, das palmeiras, que vem toda essa história inquietante de babaçu.
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Em qualquer busca rápida pela internet, tu podes encontrar, por exemplo, coisas do tipo: “é verdade que no maranhão babaçu abunda?”. Pois eu diria que o babaçu não só abunda, mas que ele abunda e muito! Tanto que é forma de sustento para cerca de quatrocentas mil famílias, e vale destacar que, dentre elas, 90% são mulheres, tanto que há, por aqui, o Movimento das Quebradeiras de Côco Babaçu que lutam pelo cumprimento da Lei do Babaçu Livre.
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Este movimento surgiu a partir da segunda metade da década de 80 quando as áreas de ocorrência do côco babaçu foram cercadas e apropriadas indevidamente por empresas agropecuárias e grandes fazendeiros com vistas na monocultura. Com a Lei do Babaçu Livre a extração do côco fica permitida mesmo em terras privadas.
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Do babaçu são feitas esteiras, cestos, chapéus, carvão vegetal, produtos cosméticos, óleos, farinha para mingaus, bolos, pães, pudins e biscoitos, e também aquela multimistura distribuída pela Pastoral da Criança para combater a desnutrição. E vale dizer também que sua palmeira não é exclusividade somente do Maranhão. Há babaçu no Tocantins, Pará e Piauí. Opa! E no Ceará, não? Hum... acho que encontrei a explicação para o porquê de eles preferirem fazer culto ao “bolinho de arroz”...
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O Erecom Piauí me deixou no peito um vazio de saudade e ao mesmo tempo um transbordar de esperanças nessa gente nova que vem chegando aí...

sábado, 15 de março de 2008

O contrário de chocolate

Confesso que tenho um sentimento que ainda não sei, de forma precisa, que nome deveria lhe dar. Tudo o que sei é que vivo com a constante impressão de que por pouco, por muito pouco, mesmo, não fui eu a pessoa quem falou pela primeira vez aquela frase tão brilhante.
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Seguindo este pensamento, devo dizer que tenho a leve impressão que, se alguma vez na vida tivesse ido à Pedreiras, interior do Maranhão onde, segundo relatos de estudantes universitários, os ciclistas param no sinal de trânsito ao lado dos carros, certamente poderia ter tido a honra de falar pela primeira vez que “a educação de Pedreiras é igual a da China”.
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Na verdade, para ser a pessoa a falar pela primeira vez alguma frase brilhante não basta apenas ser criativo, é preciso ter oportunidade. Sei que isso parece uma daquelas frases horríveis de livros de auto-ajuda ou de um daqueles palestrantes que falam sobre mercado de trabalho e cursos profissionalizantes e que no final acrescentam algo do tipo, “porque você é um vencedor!”, mas, nesse caso é bem verdade.
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Por exemplo, você pode ser criativo, militar na esquerda, ser maior de idade e ter 1m68 de altura, mas se tiver voz de criança, pode ter certeza que a tal oportunidade é anulada e a tua pequena voz dificilmente será ouvida em uma das badaladas rodas de conversa de estudantes universitários. Por isso nunca consegui explicar o porquê eu sou míope e ando sem óculos ou porque comecei a questionar a Democracia após ler Oscar Wild e que relação isso tem com o Bolsa Família.
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Segundo Wild em A alma do homem sob o socialismo, a democracia, apesar de despertar grandes esperanças, “significa simplesmente o esmagamento do povo, pelo povo e para o povo”. Concordo com ele e acrescentaria ainda que isso se dá por conta de uma educação que cada vez mais conduz para um conformismo quando deveria causar inquietação, permitir questionamentos. E a relação que isso tem com o Bolsa Família? Pergunte ao povo se o programa é bom ou ruim.
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Bom, o Oscar Wild foi para ilustrar. É consenso que determinadas discussões são extremamente inoportunas quando estamos em badaladas-rodas-de-conversa-de-estudantes-universitários criando frases brilhantes enquanto a hora da aula não chega. O “tudo tem sua hora”, eu cresci ouvindo mamãe dizer. Tudo bem, tudo bem, ela falava isso quando eu pedia alguma coisa que ela não tinha dinheiro para comprar, mas acabou virando lição de vida.
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E assim, as pessoas não costumam ouvir de mim frases brilhantes, no máximo elas ouvem pérolas ou misturas brilhantes de ditos populares, como por exemplo, “ela fez tudo de ‘divina’ e espontânea vontade” ou “ele já queria puxar ‘farinha’ para a brasa dele”. Tudo bem, também, que isso não é nada como “a educação de Pedreiras é igual a da China”, mas acredito que foram graças à pérolas como essas e ao fato de eu ser criativa, militar na esquerda, ser maior de idade e ter 1m68 de altura, que meu querido amigo Lutero atribuiu a mim a autoria da mais brilhante de todas as frases: “quando eu era criança eu achava que o contrário de chocolate era morango”.
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O triste é que eu nunca disse isso. Embora tivesse querido, e muito. Ele sorriu, eu sorri, mas não pude suportar. Precisava revelar a ele que a frase não era minha, embora ele tivesse certeza disso. Lutero achava que eu a tivesse dito pela primeira vez. Já eu achava que poderia ter sido Paula. Só sei que não fui eu, nem Paula, nem Lutero. Acho que podemos acreditar que “quando eu era criança eu achava que o contrário de chocolate era morango” foi uma frase criada a partir de nossos imaginários coletivos tão postos em evidência nas inúmeras e badaladas-rodas-de-conversa-de-estudantes-universitários.

domingo, 2 de março de 2008

Microondas casamenteiras


Durante minha vivência de doze dias no Santo Dias, pré-assentamento do MST localizado na zona rural de Guapé, sul do estado de Minas Gerais, tive a oportunidade de conhecer um casal de jovens que muito me chamou a atenção.
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O Renato concluiu recentemente seu curso de Engenharia Florestal, e a Aline é estudante de Agronomia da Universidade de Lavras. Ambos têm idade em torno de 25 anos e há um ano decidiram, pouco a pouco, abrir mão da confortável vida de jovens de classe média alta e viver como trabalhadores do campo assentados.
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Em seu barraco, de um cômodo só, não há nada além de um armário com sementes crioulas, alguns mantimentos e, bem no cantinho, um colchão de casal, “porque cama ocupa muito espaço”, diziam. Do lado de fora, na cozinha, uma mesa com uma bonita toalha quadriculada, dois banquinhos de madeira e um fogão para cozer à lenha. Já no banheiro, um chuveiro feito de lata e, para os dejetos, bastante serragem, para que posteriormente possam ser utilizados como adubo.
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No dia 9 de fevereiro deste ano, às 15h de um bonito sábado, os dois uniram-se em casamento iluminados por raios de luz que passavam pelos galhos das mangueiras que tinham em seus troncos mensagens relacionadas à terra, à luta, à união e à família, e que nos refrescavam com uma prazerosa sombra naquela tarde tão ensolarada.
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Nada de carne nem álcool. Após a cerimônia as pessoas cantavam, dançavam, sorriam, conversavam e principalmente comiam. Eram pamonhas doces e salgadas, deliciosas broas de amendoim, bolos de mandioca ou milho, pães de queijo, requeijões, bolachas, pãezinhos entre tantos outros quitutes preparados em mutirão pelas donas das casas do assentamento, e tudo, claro, regado a muito suco de manga ou goiaba que poderia ser vermelha ou ainda branca.
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Essa história toda de microondas veio de uma conversa minha com um amigo da Aline alguns dias antes do casamento. Ele nos contava sobre a reação de sua família ao receber o convite para o casamento: “no convite a Aline e o Renato escreveram que não queriam presentes, que a presença de cada pessoa seria o seu maior presente.”
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A loucura começou bem aí. Segundo o amigo, a Aline tinha uma tia pra lá de chic que estava indignada com a possibilidade de não levar um presente para sua sobrinha. Ela estava disposta a subverter aquele pedido, quase uma regra, proposta pelo jovem casal. Ah, mas o que pode haver de mal ou de engraçado nisso? Coitada... Era somente uma tia “pra lá de chic” querendo presentear sua sobrinha, ora ora.
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Até aí, tudo bem. Tudo bem se o presente da tal tia não fosse um bonito e moderno forno microondas! “Eu fiquei me perguntando o que a Aline iria fazer com um forno microondas”, disse o Thiago, gargalhando durante nossa caminhada.
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Eu confesso que também me deparei diante do mesmo questionamento e que foi quase inevitável não sorrir logo em seguida. Não sei se eles ganharam o tal do forno microondas, as únicas coisas que sei são duas: a primeira é que o Renato e a Aline são, para mim, um exemplo bonito, verdadeiro e próximo do que é um suicídio de classe; e a segunda é que ter uma tia “pra lá de chic” quando se é socialista, pode ser bem complicado, mas, com uma pitada de humor, bem divertido.

 
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