segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Desentendimentos

Passou pela porta com o cigarro entre os dedos e parou próximo à janela da sala, onde se encostou. Organizou a carteira e o isqueiro, observou tudo em volta e manifestou algumas poucas palavras. Retomava-se assim nosso diálogo que, após tempos em desuso, seguia como de costume, cheio de conflitos e identificações.

– Gostei da mudança. Acho que vou dar um presente para a casa.
- É? O quê?
- Minha mãe...

Parou, levou o cigarro até a boca, fez uma conchinha com uma das mãos, riscou o isqueiro e tragou. Mas tragou como quem respira após uma longa série de nado submerso ou como quem suspira disfarçadamente. Fez tudo isso enquanto me ouvia suplicar por informações, exclamar um milhão de coisas e questionar suas ideias absurdas. E tão somente então, aliviada, completou:

– ...faz uns quadros ótimos de tapeçaria.

Passeio Público

Um passeio público é assim: tu escreves em um papel de forma livre, sem critérios sobre fonte, recuo ou espaçamento. A única coisa que se pede é que sejam feitas, no mínimo, três manifestações. Por sugestão, essas podem ser no flanelógrafo do prédio, na padaria da esquina e no mercadinho de dona menina. Pede-se também que a manifestação seja feita com, no mínimo, trinta minutos de antecedência. Se, durante esse período, ninguém se revelar contra a ação, pronto. Tudo feito. Do contrário, não há passeio público. O que não quer dizer também que não há passeio. Mesmo porque nem todo passeio precisa ser público. Ele pode ser escondido, uma passeada oculta, um role clandestino ou, simplesmente, uma fugidinha. 

- Comunicamos a quem possa interessar que estamos indo passear.

domingo, 8 de setembro de 2013

Mais um dia de lutas

A situação está insustentável. Já não se pode ir às ruas, entoar palavras de ordens ou empunhar faixas que falem sobre nossas justas reivindicações. Há helicóptero sobre nossas cabeças. Há tropas e mais tropas à nossa frente e nas laterais. Não existe diálogo, nem vontade nenhuma de fazê-lo. Decerto, nunca existiu. Os governos não investem em saúde, transporte ou educação, mas equipam muito bem seus homens para garantir uma forte repressão a nós que nada mais temos além dos nossos sonhos e nossa disposição. É o estampido das bombas, o gosto do gás que fica na boca, o ardor da pimenta que salta aos olhos e a cena dos que ficaram caídos, feridos no chão. São também as lembranças dos que correram à procura de abrigo, das mãos geladas da companheira de outra sigla que chama teu nome, e do reencontro entre os nossos camaradas em meio àquela imensa confusão. Vivemos um novo momento: mais pessoas questionam, contestam, resistem. É preciso seguir nas ruas. Mas é preciso sobretudo fortalecer ferramentas que apontem para além dessas mobilizações, que nos fortaleça organizativamente, porque os que nos combatem, já deram inúmeras mostras, estão bastante bem organizados.

Reflexões pós 7 de setembro, em Fortaleza - CE.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Sobre o que arde mais


Ardem os olhos sob efeito das bombas de gás lacrimogêneo jogadas pelo estado repressor e, tanto quanto eles, ardem também os nossos rostos diante do conservadorismo e tantas incompreensões. Exigir que não se manifestem agora aqueles que estiveram encampando uma série de lutas enquanto uma multidão estava adormecida, faz parte tanto de um grande jogo político da direita, como de uma imensa contradição da democracia tão reivindicada por aquelas e aqueles mais honestos.

Ontem, na manifestação que levou dezenas de milhares às ruas de Fortaleza, enquanto a marcha era alvejada pela polícia militar com bombas e balas de borracha, havia um setor que dividia o movimento e incitava um grito de “fora partido”. Não somente nós do PSTU fomos obrigados a retirar nossas bandeiras para participar da marcha, centrais sindicais como a CSP Conlutas, entidades estudantis como a ANEL e movimentos sociais como o MST foram também impedidos de fazer o que há muito é parte do seu dia a dia.

Fomos xingados, ameaçados por força física, cercados por uma multidão. Compreendemos toda a descrença das brasileiras e brasileiros em relação à política partidária, sobretudo após toda traição petista ao longo de dez anos no governo. Mesmo assim, permanecemos firmes na marcha e firmes seguimos orgulhosos em mostrar nossa política e nossa organização. Nos organizamos, debatemos, militamos diariamente. Deixar de ir às ruas agora seria negar toda a história que a gente constrói cotidianamente.

Podem fazer arder os nossos olhos, os nossos rostos, podem até ligeiramente nos entristecer, mas, diante da nossa necessidade e do desejo ardente de transformar realmente as coisas, tudo isso acaba que nos fortalece e nos faz perceber o quão grande é o tamanho e quão ousada é a nossa tarefa. “Calo-me, espero, decifro. / As coisas talvez melhorem. / São tão fortes as coisas! Mas eu não sou as coisas e me revolto.” (Carlos Drummond, em É tempo de partido).

domingo, 16 de junho de 2013

R$ 560,00


Acho graça da Fortaleza Apavorada que diz que não vai às ruas na próxima quarta-feira, quando acontecerá jogo do Brasil contra o México, justificando que a melhor forma de protestar contra os absurdos que acontecem neste país é indo vestido de preto à arena Castelão.

Na última semana, várias capitais do país explodiram em mobilizações que levaram às ruas milhares de jovens e trabalhadores, inicialmente debatendo a pauta do transporte público e de seus altos preços, mas ganhando proporções distintas e expulsando da garganta gritos de indignação que estavam há muito presos.

O valor cobrado por um ingresso para assistir a este jogo da Copa das Confederações em Fortaleza é quase o dobro do valor necessário para que um fortalezense possa comprar uma cesta básica, é mais de 80% do salário mínimo que se recebe após um mês inteiro de intenso trabalho.

Somos nós, os jovens e trabalhadores que não temos e que por isso não pagamos, os que mais sofremos com a falta de segurança que, quando não nos toma de assalto, nos espanca, nos detém, nos prende ou mesmo nos mata porque nos entende como inimigos.

É legítimo reivindicar segurança pública e protestar contra a violência, mas não questionar as causas desses problemas e a relação entre tudo isso e os governos é no mínimo inconsequente. Por isso é importante que se diga que entre nós há diferenças.

Diferente da Fortaleza Apavorada, nós – que também gostaríamos de assistir a Copa de perto – famílias removidas, trabalhadores em campanha salarial, estudantes sem carteirinha e sem direito à meia cultural, não estaremos de preto quarta-feira na arena Castelão, mas nas ruas, onde as lutas se darão.
 
Copyright 2009 zine colorido
Convert By NewBloggerTemplates Wordpress by Wpthemesfree