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domingo, 12 de setembro de 2010

Fragmentos de uma carta já postada

Bom dia.

Porque amor é sol. É calor. É praia. É banho de sal da água do mar ou do chuveiro. É voltar para casa com o cheiro do teu shampoo em meus cabelos. É chorar na despedida por não conseguir dizer tudo o que queria dizer. É ter medo de não te encontrar de novo para ficar até o dia amanhecer.

É esquecer a fome e só depois de muito dela lembrar. Porque o amor para mim é uma mesa para dois, seja de café, almoço ou jantar. É hambúrguer, batata frita e suco de laranja dentro do cinema. É pizza com guaraná Jesus na praça de alimentação. É rabanada com pipoca dentro do teu quarto, em frente à tua televisão.

Amor para mim é sofrer por saber quanto espaço ocupo quando entro em tua casa, teu quarto e teu banheiro. São minhas roupas espalhadas, são meus produtos de beleza. É o pote de creme derrubado no chão do box. É o meu cheiro te fazendo lembrar e minha preocupação para lá nenhum objeto deixar.

É voltar para casa com um nó na garganta por não saber se tu ficaste bem. É deixar de lado toda a alegria que eu tinha em viajar se eu não for para aí te ver. Porque estar contigo é mesmo bom. Te ver, te ouvir, segurar tua mão tão bonita, te abraçar e sentir teu cheiro de calma, de madrugada, te beijar e sentir teu gosto de amor.

O amor é tudo isso. É diferença. É coincidência. O amor sou eu. O amor és tu. Quem o inventou, não sei. Só sei que estou longe da tua alegria e que ficar perto de ti é guardar estas lembranças como uma das coisas mais valiosas que tenho.

E se do nosso amor a gente é quem sabe, quem em meu nome dirá que é de paz que preciso quando o amor que guardarei por toda minha vida carrega consigo o nome da guerra?

domingo, 13 de junho de 2010

O tempo de uma paixão

Quando Mauro Luís Iasi contou sobre a vontade de ser eterna que toda paixão carrega consigo, falou da cegueira e da loucura que tomam os amantes que se põem a desafiar, com qualquer embarcação ou nenhuma orientação, os mares mais insensatos e furiosos, e da relação declarada de guerra que este sentimento tem com o tempo.

O tempo, “que vive entre os números do relógio prisioneiro”, é também o responsável pela ilusão e desorientação dos amantes que temem e sofrem por pensar que este seja, assim como penso, um verdadeiro faminto e devorador de grandes paixões. E é exatamente por medo desse passar, consumir, digerir, que aqueles que vivem uma paixão se atiram insanos, antecipando-se ao fim.

Acontece que a paixão ou outros sentimentos tão avassaladores quanto, não são regidos por mágica como as pessoas gostariam que fossem, e têm, na ciência, uma série de explicações, dentre elas, aquela que diz que estes costumam durar no máximo quatro anos ou o tempo até que apareça outro alguém que faça despertar um sentimento ainda maior.

É a partir daí que penso sobre a quantidade de tempo desperdiçada ou o quanto do melhor de uma paixão deixamos de viver cotidianamente, seja por medo, por muito avaliar ou simplesmente por esperar que chegue um momento que, com o passar do tempo, só tende a se afastar ainda mais. E deste modo, deixamos que passem as paixões, os amores, a vida.

E foi assim que diante dos últimos acontecimentos comecei a entender como algumas paixões têm passado por pessoas próximas e principalmente por mim. Estas, se não são vividas em seu momento exato, se não recebem quem se atire nelas de imediato, correm o risco de não mais acontecerem. E então, tem-se carinho, amizade, amor platônico ou qualquer outra coisa, menos paixão.

Porque o tempo já terá devorado as maiores vontades.

domingo, 23 de maio de 2010

Insensatez*

Viajou 1070 quilômetros, caminhou pela rua onde fica minha casa, entrou pelo portão, cumprimentou minha família e se instalou bem ali, no centro da sala e em cima da mesa que não gosto. Fora avisado de que eu demoraria, mas não deu importância a mim, assim como também não deu aos olhares curiosos daqueles que passavam ou que ficavam pelo lugar. Pardo, imóvel e em silêncio o fantasma aguardou minha chegada.

À tarde, quando ligaram-me para avisar do ocorrido, experimentei pelo corpo inteiro o sabor estranho de toda aquela confusão. Tudo porque eu pedi aquele encontro desejando, o tempo inteiro, que ele nunca acontecesse. Deste modo esperei com o coração apertado e os olhos apagados, embora brilhantes de lágrimas, a chegada daquela noite e, com ela, a hora da volta para casa e do encontro que enfim se fez.

Vi-me então, frente a frente ao fantasma que eu mesma construí por conta de meus medos. Peguei-o pelas mãos e juntos subimos as escadas, caminhamos, em passos lentos, sofridos e tristes rumo à cegueira branca de meu quarto. Cúmplices, nos olhávamos em busca de cada detalhe, e em mim estavam as marcas de uma velhice que me tomou de súbito nos últimos meses, as marcas do preço que se paga por errar, por falar a verdade, por amar.

Recebi um pacote triste, endereçado com aquelas letras pequenas e descoordenadas, porém delicadas, que por muito tempo me trouxeram alegria em encontrá-las. Dentro dele estavam todas as cartas que escrevi a alguém nos últimos dois anos de nossas vidas. Estavam as memórias de nossos sentimentos mais sinceros em cores, palavras, papéis. Estavam as expressões de um amor que transformou a mim, embora não seja reconhecido.

As memórias me são muito importantes, são o meu grande apego. E é exatamente daí que surge o maior de todos os meus medos, o do esquecimento, o dos outros em relação a mim e, principalmente, o meu próprio. Por isso não queimo cartas, rasgo fotografias ou apago e-mails, por não conseguir parar de pensar, um minuto sequer, que esses registros podem me ajudar a lembrar de minha própria história.

Há alguns dias soube que as lembranças do maior amor que vivi estavam sendo apagadas para sempre. Diante da loucura manifestada por meu coração e minha mente, pedi as cartas, os fragmentos de minhas memórias. Mas a verdade foi que recebê-las trouxe-me tanta tristeza quanto imagino que me traria se soubesse que elas não mais existiam. A chegada das cartas representou o desfazer-se de um passado que preferiam não ter vivido.

Este fantasma saiu de lá para ficar aqui, guardado no relicário que construí, fazendo-me lembrar o preço que hoje pago pela insensatez de quem não queimou seu último navio ao aportar. Isso por puro medo da dor, medo que fez sofrer quem amava, me fazendo por isso sofrer mais do que algum dia pude imaginar que o faria. Entristece-me muito saber que de tudo, foram as más lembranças as que ficaram lá.

Quanto a mim, guardo as boas memórias. Porque tal como um dia disse Drummond, "as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão".

*Para sentir, sugiro complementar a leitura com a composição de Vinícius de Moares e Toquinho clicando aqui.

domingo, 2 de março de 2008

Microondas casamenteiras


Durante minha vivência de doze dias no Santo Dias, pré-assentamento do MST localizado na zona rural de Guapé, sul do estado de Minas Gerais, tive a oportunidade de conhecer um casal de jovens que muito me chamou a atenção.
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O Renato concluiu recentemente seu curso de Engenharia Florestal, e a Aline é estudante de Agronomia da Universidade de Lavras. Ambos têm idade em torno de 25 anos e há um ano decidiram, pouco a pouco, abrir mão da confortável vida de jovens de classe média alta e viver como trabalhadores do campo assentados.
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Em seu barraco, de um cômodo só, não há nada além de um armário com sementes crioulas, alguns mantimentos e, bem no cantinho, um colchão de casal, “porque cama ocupa muito espaço”, diziam. Do lado de fora, na cozinha, uma mesa com uma bonita toalha quadriculada, dois banquinhos de madeira e um fogão para cozer à lenha. Já no banheiro, um chuveiro feito de lata e, para os dejetos, bastante serragem, para que posteriormente possam ser utilizados como adubo.
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No dia 9 de fevereiro deste ano, às 15h de um bonito sábado, os dois uniram-se em casamento iluminados por raios de luz que passavam pelos galhos das mangueiras que tinham em seus troncos mensagens relacionadas à terra, à luta, à união e à família, e que nos refrescavam com uma prazerosa sombra naquela tarde tão ensolarada.
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Nada de carne nem álcool. Após a cerimônia as pessoas cantavam, dançavam, sorriam, conversavam e principalmente comiam. Eram pamonhas doces e salgadas, deliciosas broas de amendoim, bolos de mandioca ou milho, pães de queijo, requeijões, bolachas, pãezinhos entre tantos outros quitutes preparados em mutirão pelas donas das casas do assentamento, e tudo, claro, regado a muito suco de manga ou goiaba que poderia ser vermelha ou ainda branca.
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Essa história toda de microondas veio de uma conversa minha com um amigo da Aline alguns dias antes do casamento. Ele nos contava sobre a reação de sua família ao receber o convite para o casamento: “no convite a Aline e o Renato escreveram que não queriam presentes, que a presença de cada pessoa seria o seu maior presente.”
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A loucura começou bem aí. Segundo o amigo, a Aline tinha uma tia pra lá de chic que estava indignada com a possibilidade de não levar um presente para sua sobrinha. Ela estava disposta a subverter aquele pedido, quase uma regra, proposta pelo jovem casal. Ah, mas o que pode haver de mal ou de engraçado nisso? Coitada... Era somente uma tia “pra lá de chic” querendo presentear sua sobrinha, ora ora.
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Até aí, tudo bem. Tudo bem se o presente da tal tia não fosse um bonito e moderno forno microondas! “Eu fiquei me perguntando o que a Aline iria fazer com um forno microondas”, disse o Thiago, gargalhando durante nossa caminhada.
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Eu confesso que também me deparei diante do mesmo questionamento e que foi quase inevitável não sorrir logo em seguida. Não sei se eles ganharam o tal do forno microondas, as únicas coisas que sei são duas: a primeira é que o Renato e a Aline são, para mim, um exemplo bonito, verdadeiro e próximo do que é um suicídio de classe; e a segunda é que ter uma tia “pra lá de chic” quando se é socialista, pode ser bem complicado, mas, com uma pitada de humor, bem divertido.

 
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