domingo, 2 de março de 2008

Microondas casamenteiras


Durante minha vivência de doze dias no Santo Dias, pré-assentamento do MST localizado na zona rural de Guapé, sul do estado de Minas Gerais, tive a oportunidade de conhecer um casal de jovens que muito me chamou a atenção.
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O Renato concluiu recentemente seu curso de Engenharia Florestal, e a Aline é estudante de Agronomia da Universidade de Lavras. Ambos têm idade em torno de 25 anos e há um ano decidiram, pouco a pouco, abrir mão da confortável vida de jovens de classe média alta e viver como trabalhadores do campo assentados.
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Em seu barraco, de um cômodo só, não há nada além de um armário com sementes crioulas, alguns mantimentos e, bem no cantinho, um colchão de casal, “porque cama ocupa muito espaço”, diziam. Do lado de fora, na cozinha, uma mesa com uma bonita toalha quadriculada, dois banquinhos de madeira e um fogão para cozer à lenha. Já no banheiro, um chuveiro feito de lata e, para os dejetos, bastante serragem, para que posteriormente possam ser utilizados como adubo.
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No dia 9 de fevereiro deste ano, às 15h de um bonito sábado, os dois uniram-se em casamento iluminados por raios de luz que passavam pelos galhos das mangueiras que tinham em seus troncos mensagens relacionadas à terra, à luta, à união e à família, e que nos refrescavam com uma prazerosa sombra naquela tarde tão ensolarada.
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Nada de carne nem álcool. Após a cerimônia as pessoas cantavam, dançavam, sorriam, conversavam e principalmente comiam. Eram pamonhas doces e salgadas, deliciosas broas de amendoim, bolos de mandioca ou milho, pães de queijo, requeijões, bolachas, pãezinhos entre tantos outros quitutes preparados em mutirão pelas donas das casas do assentamento, e tudo, claro, regado a muito suco de manga ou goiaba que poderia ser vermelha ou ainda branca.
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Essa história toda de microondas veio de uma conversa minha com um amigo da Aline alguns dias antes do casamento. Ele nos contava sobre a reação de sua família ao receber o convite para o casamento: “no convite a Aline e o Renato escreveram que não queriam presentes, que a presença de cada pessoa seria o seu maior presente.”
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A loucura começou bem aí. Segundo o amigo, a Aline tinha uma tia pra lá de chic que estava indignada com a possibilidade de não levar um presente para sua sobrinha. Ela estava disposta a subverter aquele pedido, quase uma regra, proposta pelo jovem casal. Ah, mas o que pode haver de mal ou de engraçado nisso? Coitada... Era somente uma tia “pra lá de chic” querendo presentear sua sobrinha, ora ora.
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Até aí, tudo bem. Tudo bem se o presente da tal tia não fosse um bonito e moderno forno microondas! “Eu fiquei me perguntando o que a Aline iria fazer com um forno microondas”, disse o Thiago, gargalhando durante nossa caminhada.
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Eu confesso que também me deparei diante do mesmo questionamento e que foi quase inevitável não sorrir logo em seguida. Não sei se eles ganharam o tal do forno microondas, as únicas coisas que sei são duas: a primeira é que o Renato e a Aline são, para mim, um exemplo bonito, verdadeiro e próximo do que é um suicídio de classe; e a segunda é que ter uma tia “pra lá de chic” quando se é socialista, pode ser bem complicado, mas, com uma pitada de humor, bem divertido.

9 comentários:

Glaucione disse...

Bom, achei o texto muito legal... e eu "parei" pra pensar: nossa que coragem!
Isso que é amor a vida, porque de fato a vida não se resume à vida individual, ela também é acrescida do coletivo e sim, isso é um demonstração de amor à vida do próximo, pois pra largar o conforto (ô tentação esse conforto!) de uma vida toda, para se dedicar às causas do próximo (não digo alheias porque essas causas também nos pertencem, nós que nos fazemos de cegos!) é ato de amor e o mundo precisa muito disso, pois eu ainda tenho esperança de um mundo melhor sim!! que isso sirva de exemplo (principalmente para minha pessoa), às vezes nós precisamos acordar, precisamos de injeções de coragem... e tenho certeza Camila que você tem muito a contribuir (você já tem muita história pra contar hehehe) e seus textos são ótimos!!
bjos de sua filha postiça!!!
=**** sucesso mãezinha

elenmateus disse...

Ei Chapolin, é que to com preguiça mermo. ah, tambem tenho um montão de outras coisas p dar conta né? aff! que cobrança!

Olha, eu esqueci de te adicionar no meu blog, mas te adicionei no meu bloglines, assim posso acompanhar tuas atualizações. eu leio tu, oras!

Vou te adicionar agora lá onde tu num tah ok? to adorando os textos! o das axilas ficou massa!

bjobjo
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Sobre o texto atual: ué, ela pode usar o micro como criado-mudo. dá p guardar uma porção de coisas legais, talvez até as sementinhas!

Tayago disse...

Camilinha ..
Você, com seus textos, é uma prova viva de que existe ainda bons textos a serem escritos, fora das fórmulas ensinadas nas IES de nosso Brasil.
Textos alegres e objetivos, que nos levam a pensar e refletir quanto a nosso papel em nossa sociedade.
Além disso, é legal ver que essa experiência lhe deu uma bagagem e algo para dividir conosco.
Mais do que nunca, espero que isso lhe sirva para reflexão e de instrumento para instigar a outros como eu, que necessitam disso ..
Beijos e saiba que pra ti, sempre vai existir ...
Sorvete
P.S - Lá tinha ?!

Annelize Tozetto disse...

Camilinha, neném.
Acho que nunca vou cansar de dizer que seus textos são ótimos. Sério mesmo. Tem todoas os ingredientes para o sucesso: humor, leveza, detalhes, reflexões e claro... aquela gingada que somente alguns brasileiros conseguem transpassar até as palavras.

Sobre o acontecimento aí relato, não preciso comentar que é mais do que um exemplo: de classe e de amor também. Amor com a vida e com o mundo... Obrigada por contar sobre Aline e ... ups, esqueci o nome do rapaz. Enfim, obrigada por trazer a história desse jovem casal. COm certeza lá, devem existir muitas e muitas outras. Espero poder acompanhar mais alguma coisa por esses dias.

Beijos lindinha

Virginia Diniz disse...

Paz, Camilinha...a história lembrou a decisão dos jovens de hj, não muito longe da realidade em que vivo...que deixam tudo por Deus, por uma causa maior para preocuparem-se com o outro...em um mundo tão egoísta como o nosso...o altruísmo não é bem visto. Louvado seja Deus, e queo Senhor abençoe a união dos dois. E pela intercessão de São Francisco, o pai dos pobres, eles sejam muito felizes. Bjs.Vi.

Carlos - disse...

Companheira Camilinha!
Por enquanto vou comentar aqui por duas razões:
1 - Parabenizar vc pelo blog! Me diverto muito ao ler textos inteligêntes.
2 - Fazer propaganda do meu blog! Voltei a escrever depois da nossa conversa. (bom na verdade postei um texto que já estava escrito, mas já é um bom começo).

Então dá uma olhada lá na novidade, é sobre as mulheres.
Ah, é vc também que tá lendo esse comentário pode ver também http://expressaohumana.zip.net.

Abraço!

Andréa. disse...

é, eu faria pipoca e esquentaria lasanha nesse forno aí. to precisadíssima de um! haha. creio q tudo na vida é escolha... o importante é eles se sentirem realizados assim...
e que haja liberdade inclusive para uma tia pra lá de chic, que reconhece a importância de um microondas.

mesmo que pra eles, um microondas não seja nada. haha.


óticas e tudo o mais.

Silvinha disse...

Camila...demorei..mas enfim... Achei muito bom seu texto,..realmente vc escreve muito bem... Pra finalizar a história... Os dois Aline e Renato, não ganharam o micro-ondas..rsss.. minha tia se convenceu que não valeria para eles..e no final..deu de presentes panelas de barro e de ferro... Um lindo presente seu este texto..
Obrigada.., Fico feliz em saber que os poemas trouxeram um certo prazer a um dia tão especial.

gato de Schrödinger disse...

Cara... Que inveja. Não aquela inveja que faz a gente querer que o outro não tenha, mas aquela "positiva", uma espécie de desejo de também poder compartilhar de sei-lá-o-que-for que se deseja com aquele que conseguiu. No caso, invejo essa coragem, esse desprendimento, esse desapego às coisas mundanas. Dentro do meu peito bate essa vontade incontrolável que eu nem sei bem de onde vem,de levar uma vida pacata e serena nalgum lugar onde encontre a natureza bem próximo de mim, longe da confusão e da mesquinharia das cidades grandes.

Muito boa essa experiência que você viveu. E melhor ainda é ter compartilhado com as pessoas que visitam seu blog. Obrigado.

Beijo, moça. Até mais.

 
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