terça-feira, 5 de agosto de 2008

Não tem ninguém ao lado

Poucas ou mesmo nenhuma vez o fato de acordar e não ter ninguém ao lado fez tanto sentido como em minha madrugada fria de dois domingos atrás. Voltando um pouco no tempo, alguns dias antes, se atravesso o chão azul da sala e sigo até a janela imediatamente oposta à parede onde se encontra meu espremido saco de dormir, tenho como prêmio a tão bela vista para a Baía de Guanabara.
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Afirmo ser um prêmio porque quando se está na extrema esquerda de um alojamento que tem sua porta localizada à direita, e quando todo o espaço interno é ocupado por uma infinidade unicolor de colchões infláveis, atravessar a sala pode ser uma tarefa árdua. É por essas e outras razões que costumo dizer que já não se fazem mais encontros como antigamente.
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Pensando bem, já nem sei se são os encontros que já não são mais feitos como nos velhos tempos. Talvez o problema todo esteja mesmo nos encontristas. Tenho saudade de quando os alojamentos tinham cores que não somente o azul, assim como sinto falta dos tempos em que os estudantes tinham um compromisso, mesmo que mínimo, e eram conscientes de seu papel dentro dos encontros.
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As fábricas de colchões infláveis podem, em breve, começar a produzir colchões de cores diferentes, a não ser que exista uma explicação científica para que eles sejam todos da cor azul. Mas, e as “fábricas” para encontristas diferentes dos que vemos hoje, será que existem? Será que as verei?
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Estávamos no 29º Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação, em Niterói, Rio de Janeiro. Estávamos? Quem estava? Antes do encontro, os estudantes reclamavam ou mesmo clamavam para que entre os painéis, mini-cursos, oficinas, núcleos de vivência, grupos de discussão, estudo e trabalho, os tão falados espaços “lúdicos” fossem garantidos.
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E foram! Aos montes. Diria até que nunca vi tantos. Tivemos até, em nossa grade, o chamado “turiscom”. Mas ainda assim, mesmo com tanto divertimento garantido, o que vi foi um grande descomprometimento das delegações da maioria dos estados. Ah, mas eu não posso querer muito, afinal, não dá para competir com o Rio, não é? Por que eu, estudante de co-mu-ni-ca-ção, vou ficar discutindo co-um-ni-ca-ção, se posso ir ao Pão de Açúcar, ao Cristo Redentor, ao Jardim Botânico, à Lapa ou mesmo assistir um jogo no Maracanã?
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Apesar disso, o encontro teve muita coisa boa. Para entender um pouco, a Enecos, nossa Executiva de Curso, estava há um ano e meio sendo coordenada por comissões gestoras. A primeira comissão foi formada em nosso Congresso Brasileiro, em janeiro de 2007 em São Paulo, e a segunda em janeiro deste ano, em Maceió.
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No entanto, esta estrutura nos trouxe uma série de problemas, uma vez que os estudantes que compunham (por auto-indicação) tais comissões, não tinham entre si um planejamento mínimo de gestão. Além disso, não existiu um projeto político comum que trouxesse a consistência necessária aos debates que deveriam nortear nossas ações enquanto estudantes organizados em uma Executiva.
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Nesse sentido tivemos alguns consideráveis avanços. O Enecom serviu para se pensar, discutir e planejar novas atividades para a Enecos para os próximos períodos. Nos espaços, apesar de poucos, os novos estudantes participaram bastante e se comprometeram de tal forma que já podemos notar trabalho em algumas de nossas tantas listas de discussão.
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Além do mais, aproveitei a oportunidade para rever a família, abraçar apertado alguns dos meus bons e saudosos amigos, reviver antigos sentimentos e experimentar novas sensações, como um encontro inesperado no banheiro durante uma madrugada, deitar na grama, admirar o céu e pegar sol depois do almoço ou matar o final de uma roda de diálogo para ver, do corredor do andar de número 3 do bloco “N”, o pôr do sol alaranjado do Gragoatá.
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A parte sentimental da minha saga foi o frio que fez nos dois últimos dias. Principalmente no último. Lembro-me daquele burlesco conselho de centros e diretórios acadêmicos, aquele em que o cantor de um grupo de samba pegou o microfone para dizer que não estávamos com nada. Lembro-me, também, das cobranças que fiz... Da figurinha de chocolate que ganhei... De meu rosto, mãos e pés bem gelados... E de minhas (até então não sabidas) últimas palavras ao sair da tenda à procura de um pouco de calor no alojamento... Dormi.
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Só eu sei o susto que levei quando dei por mim, às 4h de uma madrugada fria, no cantinho mais apertado daquele alojamento. Na rapidez que virei para o lado, meu coração disparado e já em mil pedaços parecia querer encontrar alguém. Vários “alguéns”. Meus amigos estavam com saídas marcadas para as 23h... 2h... 3h... Uma ou outra saída atrasou, então pude me despedir de algumas poucas pessoas... Estou ficando velha, e a cada encontro a despedida fica mais difícil.
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Lágrimas, o fim do encontro chegou... E com ele, os encontristas. Desta vez, para me consolar... São meus amigos... Recolho o meu saco de dormir, que não é azul, e todos os colchões são esvaziados. Estou de volta à minha casa. Alguém tem contato para sugestões de alguma fábrica de colchões infláveis?

12 comentários:

Barbara disse...

Teu texto foi a melhor avaliação do Enecom/Niterói. Quanto às lágrimas, estas são inevitáveis.

Davi Gentilli disse...

A figurinha do chocolate!! =]

As pessoas estavam dispersas no Enecom? Nem tinha notado...
eu tava muito disperso pra reparar

camila chaves disse...

hahaha nem falei minha teoria: que os colchões infláveis descaracterizam os encontros. me recuso a ter um. tinha mais alguma coisa... mas por enquanto, encerro meu comentário dizendo que esse pessoal que se forma, depois volta para os encontros só para pelegar... eita! hahaha

Geísa Suzane disse...

Olá companheira Camilinha...
saudades sua...
encontrei seu blog por acaso na internet... e resolve apreciar os seus escritos...muito bons...
fico feliz por reencontrar amigos, companheiros de escritos..escritos esses que ficaram para eternidade, nem que seja na memoria de quem os lê...
Estou adicionando seu blog nos meus favoritos do meu blog: www.geisasuzane.blogspot.com
um beijãoo
fique com Deus

Dama de Cinzas disse...

Interessante sus post! Nunca tive experiências com colchôes infláveis...

Beijos

Luiz Guilherme Dias disse...

Acho importante falar de uma luta que foi bem debatida no encontro! A luta pelo BISCOITO talvez tenha sido o espaço mais participativo. Graças a pressão que os mobilizadores desse movimento fizeram na comissão organizadora, o BISCOITO foi garantido em todos os cafés. E não parou por aí: todos os kits alimentção, isso mesmo TODOS, continham uma porção desse maravilhoso e nutritivo elemento de luta. Sim, para o MPB( Movimento Pró BISCOITO) o biscoito é de luta!

Recheados, amanteigados e salgadinhos
Uní-vos!

camila chaves disse...

aaah! sim, sim, claro! como não, luís? o enecom foi uma excelentíssima oportunidade para consolidação, em outras palavras, para deixar ainda mais crocante o nosso MPB, movimento pró-biscoito, surgido há quase 1 ano naquele saudoso seminário de porto alegre, em 2007.

biscoitisticamente falando, eu diria que no enecom pudemos mostrar aos estudantes o quanto o biscoito é mais de luta que a bolacha, embora os melhores discursos sejam da oposição, como o de que "a bolacha é mais de luta porque ela é das massas" e "defender a questão das bolachas é defender uma questão de gênero" ambos de naiady.

ter um dos cabeça de nosso movimento "trakinando" dentro da comissão organizadora do enecom, foi fundamental para garantir e sobretudo dar visibilidade à nossa luta! sem dúvida a garantia deste rico e delicioso alimento (embora inconsistente, algo que precisamos trabalhar) em todos, repito t-o-d-o-s os kits de café da manhã do encontro caracterizam uma considerável vitória.

outros encontros virão e o MPB irá dominar o mundo. e quando isso acontecer e quando finalmente todas as pessoas estiverem conscientes disso, então descançaremos viajando em recheios de diversos sabores para, somente então ver "passar o tempo". hahaha.

=*

Gerussol disse...

Não se fazem mais nada como antigamente Camilinha...Outro dia estava eu e Colgate na fila da biblioteca conversando, e chagamos a conclusão de que estamos velhos. Só os velhos sentem saudades, se recordam das coisas. Um grande sintoma é quando dizemos a celebre frase "quando era no meu tempo...".Mas o que me conforta minha querida é que no ciclo do nosso cansaço, da nossa desilusão, irá num momento surgir alguem tão jovem quanto nos fomos no primeiro despertar da luta. Eu saio e ele entra... O M.E não se faz de pessoas calejadas, ele é um devorador da vida fresca e nos somos plantadores de sonhos possiveis Camila, sonhos que infelizmente não vamos colher, mas que em parte há de brotar graças a nós.
Beijos!

Glaucione disse...

minha partipa(pelega)ção me fez sentir-me um pouco envergonhada ao ler o texto... afinal meu colchão é azul!

paula acotirene disse...

Camilinha,quase chorei...
ai que saudades
=/

beijinhos
Paula

Tayago disse...

Camila ...

Tenho novidades ...
Eu cheguei a ver um colchão rosa no quarto de BH. Isso prova que há uma esperança no final do túnel para a cor dos colchões. Na verdade acho que como quem produz o colchão é capitalista, não pensa em associar sua marca a cores socialistas (por isso não teremos nunca colchões vermelhos), mas bem que poderíamos ter alguns coloridinhos.
Já a fábrica de encontristas, bom, essa acho que depende de nós. Talvez os encontros, como tudo na nossa vida tenha um tempo, um ciclo, e nada vai ser como era antes. Mas mesmo sendo diferente, podemos ver que as pessoas continuam a se comprometer e acho que nesse momento, isso é que importa.
Saudades ....
Quantas vezes já não chorei por senti-las. Quantas vezes não dormi por não querer esquecer momentos que passei com alguns, ou muitos amigos (talvez não tantos como você, mas pessoas importantes para mim também)
Sei que meu abraço não foi tão quente e apertado como o sol daquela manhã, mas o que não pude te falar naquele dia é que vai bastar você olhar para ele, para um nascer do sol como aquele para saber que existem muitas pessoinhas (olha o Piauí aí gente) que também sentem saudades de você.
E a vida continua e nos reencontramos nessas esquinas da vida .....
Beijos ...

Secoelho disse...

Ah, nem posso dizer: "é mesmo! tu lembra disso? cara, aquilo foi muito massa..."

Não fui.

 
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