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domingo, 23 de janeiro de 2011

Pecado

Aceitei Jesus e voltei para casa com um peso imenso na consciência.

Eu só queria brincar, juro. Mas os danados dos meus coleguinhas tinham mesmo umas manias bestas para escolher divertimento, de modo que, se nas noites anteriores preferiram assistir às Chiquititas a brincar de rouba bandeira, naquele dia simplesmente decidiram que deveríamos fazer parte do grupo de adultos que se animavam em frente à casa do Juninho.

Acontecia que, de tempos em tempos, os pais do Juninho organizavam lá na rua atividades da igreja da qual faziam parte. Até que as coisas eram animadas, reconheço: tinha música, cantos, palmas, histórias e às vezes até lanche! Mas confesso que quanto mais perto chegava do fim, mais alegre eu ficava, porque então poderia correr, gritar, brincar de roubar e fazer o que mais desse em minha cuca de lelé.

Ledo engano.

Ao final, todas as pessoas que haviam participado daquele ritual pela primeira vez, inclusive nós, pobres e indefesas crianças, fomos convidados a ir à frente e responder, um a um, ao questionamento que encerraria aquela noite: – Você aceita Jesus? – Meu Deus do céu, como poderia eu ou qualquer outra pessoa recusar Jesus ali diante de todos aqueles olhos? – Sim...

Aquele episódio dava início a uma longa madrugada em claro. Era verdadeiramente um drama, porque eu era consciente que o que eu dissera não fora ao meu amigo Jesus, mas sim àquela igreja que, por sinal, não era a mesma Católica Apostólica Romana que ditava as regras que serviam de base à educação e às formas de ver o mundo que minha família me impunha.

Demorei, mas superei. Ninguém nunca soube, mas a ideia do pecado simplesmente me seguia, perseguia, curtia. Se havia um lugar onde eu não poderia tossir, eu sabia que esse lugar era a igreja, porque tossir na missa era pecado, assim como era pecado falar, escrever ou pensar na palavra “bunda”, não só na igreja, mas em qualquer que fosse o lugar.

Era confuso. Praticamente tudo era pecado. Não amar era pecado. Mas, amar, dependendo de quem fosse, poderia ser pecado, também. Era pecado pensar nas contradições da Igreja que estavam inclusive nas falas do padre: – Eu tenho certeza, mamãe. Ele disse: ‘Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz’, e depois, no mesmo dia, sem nem demorar muito, ele ordenou ao cordeiro de Deus: ‘dai-nos a paz!’. Não foi a senhora quem me falou que era feio dar e depois pedir de volta?

Mas não adiantava. Quando não eram as contradições, eram as besteiras. Eu até ia muito bem, mas bastava que a banda tocasse “Meu coração é para ti, Senhor!”, que eu, que não tinha carro nem nada e que no máximo passeava na Belina de Tia Helena, me danava a pensar na Parati, aquele carro bonito da mãe da Bruninha. E “Meu coração é PARATI, Senhor!” me fazia novamente pensar que aquilo era pecado.

Talvez fosse.

O fato era que desde ali eu percebia o quanto a religião, que deveria ser assunto de caráter privado, nos dividia e interferia em nossa vida em coletividade, impondo regras, medos, tabus. Optei por não querer. Hoje tenho a ideia de um Cristo em quem acredito, leio sobre santos, santas, deuses e deusas e tenho uma concepção de espiritualidade que não me impede de ver a realidade de forma científica e que, principalmente, me permite arrancar dos conflitos de outrora boas oportunidades para o riso. Me faz sentir bem.

domingo, 18 de julho de 2010

Com sabor de Ploc

Primeira metade da década de 90.

Graças a minha única e por isso melhor amiga, eu podia escolher pela espiada concedida pelas brechas feitas entre seus dedos, quem me tiraria de uma vez por todas daquele poço em que costumávamos cair todas as noites enquanto nossos pais assistiam ao jornal.

- Caí no poço! / Quem te tira? / - Meu bem. / Quem é teu bem? / - Alguém. / É esse? / - Não. / É esse? / -Não. / É esse? / - É! / Um aperto de mão, um beijo no rosto, um abraço ou um passeio completo? / - Um passeio completo.

Naquela época, um “passeio completo” tinha muito mais a ver com um beijo no rosto, um abraço e um passear de mãos dadas até o final daquela rua sem saída, do que com um traje que, mais tarde, seríamos obrigados a vestir por conta da formalidade de determinadas ocasiões.

De volta ao caso, a verdade era que graças à facilidade dada por quem fechava meus olhos na brincadeira, o meu escolhido era sempre o Cristiano, aquele dos tons de pele, olhos e cabelos de uma harmonia sem igual, e por quem eu nutria uma paixão tão grande que me fez fazer o que fiz.

Era uma bonita tarde de sol com a calma de pós-almoço que só as periferias têm quando decidi comprar um ploc para presentear o Cristiano. Não tendo eu resistido àquela gostosura em minhas mãos, avaliei que ele não se importaria caso eu lhe desse somente a metade. E assim o fiz.

Comi a parte de morango, porque naturalmente era a mais gostosa, e embrulhei a outra, cuidadosamente, em uma folha de caderno, porque eu precisava também ficar com a figurinha. Havia muito de romantismo em minhas ações. Feito o presente, pedi àquela amiga que o entregasse.

Ela voltou dizendo que o pedido havia sido entregue com sucesso, que Cristiano estava na sala quando o recebeu e que a família, ao ver a situação no mínimo engraçada, começou a rir e fazer uma verdadeira festa. O mais importante foi que ela disse também que ele havia ficado envergonhado.

Anos depois, quando já não mais masco chiclete, embora goste do gosto, reencontro aquela com quem compartilhei importantes momentos de minha infância. Conversa vai, conversa vem, e em meio a muitos risos ela confessa que, na verdade, o Cristiano nunca recebera aquele presente.

- Foi que eu comi a outra metade do ploc. - Confessou.

E como o tempo tem o poder de fazer com que uma mesma confissão possa te levar da acidez à doçura, sorrimos. Sorrimos porque esta, que poderia ter tido outro gosto, veio doce, como o sabor daquele saudoso ploc.

domingo, 27 de junho de 2010

Castigos para os que virão

Velhos tempos eram aqueles ao sabor da pimenta malagueta que temperava a boca depois de um pedaço de palavrão, porque escutas biônicas e leitores de pensamentos são itens de série que historicamente acompanham as mães desde suas saídas das maternidades.

Naquela época, ficar sozinho no quarto, não assistir televisão ou ter que abraçar alguém com quem havíamos acabado de brigar, eram as mais severas entre todas as punições, porque implicavam em não poder brincar na rua ou perder os episódios inéditos daquele desenho preferido.

Hoje as necessidades mudaram e aquilo que era castigo já não mais é. As crianças já compram salgadinhos ou mesmo chicletes com sabor de pimenta e tortura é ter que assistir televisão ou não dispor de um espaço onde se possa ficar sozinho para exercer o direito à privacidade.

Os tempos são mesmo outros, e uma vez que bater não educa e que conversar nem sempre basta, daqui para frente já podemos pensar em termos de castigos para aqueles que ainda virão. E foi exatamente isto o que Seane Melo e eu nos pusemos a fazer e, dentre tantas ideias, seguem algumas:

Mãe
Menina(o), vá para a rua brincar com os meninos, essa semana tu estás de castigo, nada de Twitter, Orkut ou Facebook.


Filha(o)
E os meus amigos?


Mãe
Ora! É por conta dessa tua mau criação que passada esta semana tu terás somente 1600 caracteres para escrever recados. E se quiseres!


Filha(o)
Mas isso não dá nem pra...


Mãe
Mas, sem mais! Vou desinstalar esse emulador do PC, se quiseres jogar vais ter que usar o Playstation!


Filha(o)
Não, mamãe, Playstation, não!
Prometo que me comporto.

domingo, 16 de maio de 2010

À Helena de minha História

Fragmentos de minhas memórias.
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Ouso dizer que a Helena da história que hoje contarei tem umas pitadas de singeleza, como aquelas que Manoel Carlos põe quando cria as suas, e outras de força, semelhante a daquela que foi o motivo de uma guerra de proporções homéricas envolvendo gregos e troianos.
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A Helena de minha História talvez não imagine que lembro bem a primeira vez em que a vi. Tinha algo como três ou quatro poucos anos e, depois de todos aqueles dias da viagem que me trouxe do Rio de Janeiro até o Maranhão, não conseguia me concentrar em outra coisa que não fosse a sua mão.
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Isso porque havia nela algo delicioso e igualmente lindo. Estava envolto por dois papéis, um metálico e outro vermelho, e eu o ganhei. E assim ela me conquistava para sempre, isso porque minha regra diz que têm coração bom os adultos que levam um chocolate para presentear uma criança em seu primeiro encontro.
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De lá para cá, aquele vermelho, que para mim é a cor do amor, sempre se fez presente, fossem nas marquinhas de benção que ela deixou ao longo da História em minha mão direita, ou naquele creme que aparentava ser de morango, tinha sabor de graviola, mas que no final das contas era de murici. A alegria de nossa tarde!
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E alegria é uma palavra que define bem esta Helena. Alegria na força, alegria no amor ou mesmo alegria na dor. Todas essas características a ela que é mãe, sempre. Mãe, ainda que seja filha, irmã, tia, esposa ou avó. Família. São sorrisos, paz, abraços e amor, todos de mãe. Por isso, sinto-me novamente filha se é ao seu lado que estou.
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À Helena de minha História, uma das maiores admiradoras daquilo que algum dia pode vir a ser Literatura, dedico em palavras uma parte de minhas memórias como expressão de todo o amor, carinho e admiração que por ela sinto. Hoje, o dia em que ela aniversaria, sinto-me, assim como muitos, contemplada por este presente da vida.
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Tia Helena,
de todo o meu coração, desejo-lhe uma vida longa de alegrias.
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Um abraço imenso de sua sobrinha,
Camila Chaves

sábado, 31 de janeiro de 2009

Se Pasárgada fosse Roma

Das dezenas de fitinhas do Senhor do Bonfim ou de São José de Ribamar que amarrara em seu braço com direito a três pedidos, nenhuma o tempo conseguiu fazer desatar. Havia um quê de categoria e tradicionalismo naquilo que se pedia. Apertava-se bem os olhos e as palavras sem som que seguiam eram as mesmas: comer pizza todos os dias, ganhar um brinquedo da hora e passar de ano na escola.
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A verdade é que passar de ano nunca fora lá grande problema e a recompensa por isso poderia até não ser um “brinquedo da hora”, mas certamente era algo que muito se queria ganhar. A confusão mesmo estava em convencer os santos de que pizzas, com seus metros e mais metros de mussarela bem esticada, pudessem ser alimento diário de uma família inteira.
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Isso gerou uma revolta. Foi uma infância inteira a persistir naquilo que os santos julgavam ser impossível. Foram fitas das mais diversas cores. Houve até um momento em que os três pedidos tornaram-se um, tamanha era vontade do inalcançável. E assim, iam: comer pizza todos os dias, comer pizza todos os dias e, para variar um pouco, comer pizza todos os dias.
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Mas as fitinhas nunca se desfizeram.
Que droga! Aqui não se pode nada!

Arruma cuidadosamente os brinquedos. Parece querer fugir de casa. Em casos como esse, há um único lugar para onde se pode ir: P-a-s-á-r-g-a-d-a. Isso, mesmo. A Pasárgada de Manuel Bandeira. Lá se pode tudo porque o rei é amigo. “Vou-me embora pra Pasárgada, porque lá sou amigo do rei!”. Não se sabe se quem exclamou foi a menina, sua vontade de pizza ou as duas.
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Fico cá pensando eu... Se Pasárgada fosse Roma, não ia querer ser amiga do rei, não. Afinal, vejamos bem: se o rato rói a roupa do próprio rei, o que dizer do fazer do rato com as roupas dos reles amigos da majestade? Creio ainda que, se o rato rói roupas, é porque lá não deve ter mussarela, “e sem mussarela, não há pizza!”, já dizia um filósofo daqueles dos bons. Pensando bem, melhor ficar em casa...
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Ei, mamãe, faz um misto quente pra mim?

terça-feira, 1 de julho de 2008

Lembranças do meu São João

Por estes dias, deixei as cores do meu zine para me dedicar a outras cores. Foram fogueiras, estrelas e bandeirinhas todas coloridas em diversos tons. Vermelho, amarelo, cor de laranja, verde e azul entre tantas outras tonalidades misturavam-se, de forma única, a outros muitos sentidos.
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Eu, ser nostálgico que sou, não poderia me furtar da sensação que é poder compartilhar boas lembranças de minha não tão velha infância. Paro então e recordo que há mais ou menos quinze anos, o nordeste recepcionava minha família e eu desta forma tão alegre, carinhosa e acolhedora que chego a suspeitar que, de forma igual, não seja em nenhum outro lugar.
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Não havia quem nas bandas de cá chegasse e não desse um pulinho que fosse no famoso Ceprama. Foi lá que descobri que, algumas vezes, quando não estão sozinhas, as cores podem ser bem mais marcantes. Percebi que em meio aquela aquarela havia uma infinidade de sons: orquestras, matracas e pandeirões traziam alegria aos ouvidos e aos pelos do corpo, muita vibração.
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Do corpo é despertada também a fome e daí, a vontade é de comer todas aquelas comidinhas boas que nunca entendi porque só aparecem nessa época. Não sei se é uma espécie de máfia montada pelas danadas das quitandeiras, que resolvem dar sumiço à gostosuras como canjica ou mingau de milho, bolo de tapioca ou de macaxeira. Um dia ainda desvendo esse mistério.
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Como quando se chega perto de quem se gosta e se respira bem fundo, o cheiro que se sente agora é de bombinha, de chuveirinho, de rojão. E é criança gritando, e é menino correndo e é poeira subindo, porque arraial que era arraial, pelo menos naquela época, tinha que ter poeira. Nem que fosse das pedrinhas britas feitas especialmente para estalar as tais bombas de estalinho.
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Quanto às crianças, tudo era muito bem pensado nas festas de São João. Quando tem boi se apresentando, as crianças sentam bem na frente, na beirada da roda, e se encantam com a habilidade dos vaqueiros ou ar misterioso que só os cazumbas têm. Nunca entendi como é que uma criatura tão feia conseguia de mim retirar, ao mesmo tempo, medo, graça e encantamento.
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E quando a apresentação terminava, ao palco subia um animador para comandar, lá do alto, as brincadeiras infantis. E foi assim que eu, uma tradicional canceriana, a menina tímida que em outra ocasião quase morrera afogada em uma bóia levada pela correnteza, por vergonha de pedir socorro, me vi em cima de um palco a cantarolar para uma multidão.
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“Eu vou dar uma revistinha da turma da Mônica para a criança que vier até o palco e cantar uma música do Boizinho Barrica! Quem vai ser a criança?”, dizia e repetia o animador com uma empolgação que talvez somente ele mesmo tivesse. Como eu fui parar lá, realmente não sei. O que sei é que até hoje me recordo daquela vozzinha pequena que tomava conta do arraial ao dizer “lua lua cheia / que bate no meio das águas / que brilha na ponta d’áreia!”.
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Foi um sucesso! Foi minha primeira exibição em público e foi também minha primeira revistinha. Eu a li e reli tantas vezes que nem mesmo ousaria arriscar quantas foram. É surpreendente tentar entender como todos os anos essa mistura de cores, sons, gostos e sentimentos me fazem reviver as mesmas lembranças que aquela menina mufina e de voz tão pequena me fizeram descobrir. Não que hoje eu fale grosso, mas isso já é assunto para uma outra história...

domingo, 9 de março de 2008

Meninos que dão em árvore

Por mais que eu sempre tivesse querido, biologicamente falando, nunca tive um irmão. Como eu demorei bastante para falar, o meu forte mesmo era observar e, se fosse algo viável de ser imitado, falando aqui do ponto de vista da discrição, eu o faria. Foi assim que, quando criança, me peguei algumas vezes tentando andar como papai ou pior, me pegaram com a mão na lâmina de barbear e o rosto cheio de creme a um passo de cometer o meu primeiro ato infracional. Uma verdadeira delinqüente!
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E foi assim que eu cresci. Em meio a um monte de meninos correndo nas ruas da periferia do São Francisco. Éramos muitos. Como a rua era fechada, a concentração era grande e o barulho em frente às casas, maior ainda. Na mesma idade que eu havia somente uma menina, isso fazia com que a regra para nós duas fosse bem clara: ou passaríamos o dia inteiro brincando de preparar comidinhas imaginárias, ou nos juntaríamos aqueles mais de dez meninos loucos e teríamos mil e uma opções de brincadeiras diárias! Uhu!
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Fazer uma decisão dessas não era tão simples como pode parecer. A começar pela educação que tínhamos e que, ainda hoje, temos em nossas escolas. Desde crianças não somos estimulados a trabalhar o corpo e a nos preparar fisicamente com um discurso cada vez mais forte de que isto acontece por conta de uma “questão cultural”, afinal, estamos na cidade, não? Os meninos ainda conseguem subverter esta lógica quando, no horário do recreio, correm, sobem nas mesas, se penduram nas escadas e liberam toda sua energia. Para mentes conservadoras, é natural que os meninos se comportem desta forma, mas se há ali uma mudança de gênero e a condição agora é cabida às meninas, pode ter certeza de que a repressão se fará.
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Mas, quem se importa? Minha tia se importava, e muito. “Camila, cadê tua mãe?”, perguntava ela sempre que me via na rua feliz da vida brincando com um monte de meninos. Ah, e vale lembrar que feliz mesmo quando o dedão do pé estava arrebentado porque, naquela época a rua não tinha asfaltamento. Mas, mais legal mesmo foi a cara dela ao ver, em meio às minhas adoráveis pecinhas de lego lego, alguns carrinhos. Ora, eu só tinha uma amiga e nós havíamos decidido por consenso que brincar com os meninos era mil e uma vezes mais divertido, ter barbies naquela situação não era nada inteligente.
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Mas eu não me importava. Tinha mais coisas com o que me preocupar, afinal, precisávamos “deliberar” em alguns calorosos minutos de discussões e brigas, do que iríamos brincar à tarde, na hora do “vale à pena ver de novo”, se seria de “com licença, Beth”, “rouba bandeira”, “polícia e ladrão”, “quem chega primeiro”, “remaninho, remaninho”, “arame e lego”, “passinho ou gol” ou de alguma outra proposta que surgisse no momento para apimentar ainda mais a discussão.

 
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