domingo, 16 de junho de 2013

R$ 560,00


Acho graça da Fortaleza Apavorada que diz que não vai às ruas na próxima quarta-feira, quando acontecerá jogo do Brasil contra o México, justificando que a melhor forma de protestar contra os absurdos que acontecem neste país é indo vestido de preto à arena Castelão.

Na última semana, várias capitais do país explodiram em mobilizações que levaram às ruas milhares de jovens e trabalhadores, inicialmente debatendo a pauta do transporte público e de seus altos preços, mas ganhando proporções distintas e expulsando da garganta gritos de indignação que estavam há muito presos.

O valor cobrado por um ingresso para assistir a este jogo da Copa das Confederações em Fortaleza é quase o dobro do valor necessário para que um fortalezense possa comprar uma cesta básica, é mais de 80% do salário mínimo que se recebe após um mês inteiro de intenso trabalho.

Somos nós, os jovens e trabalhadores que não temos e que por isso não pagamos, os que mais sofremos com a falta de segurança que, quando não nos toma de assalto, nos espanca, nos detém, nos prende ou mesmo nos mata porque nos entende como inimigos.

É legítimo reivindicar segurança pública e protestar contra a violência, mas não questionar as causas desses problemas e a relação entre tudo isso e os governos é no mínimo inconsequente. Por isso é importante que se diga que entre nós há diferenças.

Diferente da Fortaleza Apavorada, nós – que também gostaríamos de assistir a Copa de perto – famílias removidas, trabalhadores em campanha salarial, estudantes sem carteirinha e sem direito à meia cultural, não estaremos de preto quarta-feira na arena Castelão, mas nas ruas, onde as lutas se darão.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Agenda setting


Serenata de amor foi a sobremesa de hoje no restaurante universitário. Sentei ao lado de uma moça que mostrava à amiga sorridente uma mensagem no celular. Em seguida, dizia contente: "Quer dizer, mulher, que eu estou namorando e nem sei?". 

Um pouco mais ao lado, um senhor contava saudoso a história de uma namorada que teve em sua juventude. Ao mesmo tempo em que comia sua laranja, lamentava o fato de a senhora do RU ter-lhe negado um chocolate. "Só dou para as meninas!", imitava ele repetidas vezes. 

Observei nas outras mesas que outros rapazes tinham chocolate em suas bandejas. "Talvez tivesse acabado", pensei. Ou talvez quisesse a senhora provocar qualquer cascaria só para poder chamar a atenção daquele senhor e assim esquecer qualquer solidão que ela sentia.

Talvez tudo isso, talvez nada disso, mas o fato era que, dos que mais queriam aos que não queriam, esqueciam todas de tudo e falavam todos do mesmo tema.

- Feliz dia dos namorados.
- Pra mim? Menino, não está fácil pra ninguém.
- É verdade mesmo. Com o governo Dilma, então...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Decepção e satisfação do dia

Sabes, camarada, contigo eu aprendi esse negócio interessante de eleger episódios para falar do dia. No começo fui pega de surpresa. Achei difícil. Confesso. Mas hoje, de repente, fluiu que foi uma beleza! Aconteceu que depois de todo esse tempo parada dados tantos balanços e comemorações, desejei muito poder voltar para a natação. Aguardei do auge de uma ansiedade danada, feito menino que depois do período de férias não espera outra coisa da vida senão voltar à escola. Já estava eu naquele maiô pretinho básico, e qual não foi minha decepção ao descobrir que havia perdido minha touca e meus óculos. Mas não pode ser! Daí bateu uma tristeza das grandes. Sabes quando o sujeito já vai fragilizado? Pois então. Revirei o quarto inteiro, refleti sobre todas as possibilidades e quando já quase desistia pensei que um lugar provável para tê-los perdido era lá mesmo onde faço as tais aulas de natação. Saí de casa às pressas e peguei o primeiro ônibus lotado. Fui o caminho inteirinho pensando positivamente. Até promessa para São Longuinho eu fiz! Juro. Então cheguei. Passei o cartão e fui entrando. Nem quis olhar para a piscina, para não aumentar a vontade. Virei à esquerda, entrei na sala. Aguardei uma moça que fazia matrícula e muitas perguntas sobre como seria o seu primeiro dia. Depois dei boa tarde a ela e à senhora e fui falando tudinho. Olha, touca colorida eu não vi por aqui, não. Mas posso procurar. E o sorriso já foi se abrindo, porque era ela. E os óculos, precisa ver se encontra aqui nessa caixa (com mil outros). É esse aqui! É esse aqui! É esse aqui! Muito obrigada, senhora. Seja bem-vinda, moça. E quanto ao cabelo, não te preocupas, se fizeres massagem uma vez por semana fica tudo bem. E saí de lá sorridente, e olhei para trás, e dei três pulinhos, e fui para a piscina contar para a professora aquilo que era, diante de algo tão pequeno, minha imensa satisfação.
*Para Juliana Mota

sábado, 24 de novembro de 2012

E nem era carnaval

Em luta por Lucas Fortuna e tantos outros

A ressaca não passou. Tudo dói. Ainda lembro. – Vou começar assim: meu nome é Lucas Fortuna, sou estudante de jornalismo da UFG, sou militante da Enecos e sou gay. Era janeiro de 2006 e a tarde estava cheia do calor da cidade de Recife. Estávamos no Congresso Brasileiro de Estudantes de Comunicação Social (Cobrecos) e ele mediaria o Grupo de Estudos e Trabalho de Combate às Opressões. Era a minha primeira vez.

Desculpa, só uma questão: homossexualismo, não. Homossexualidade. Me dizia gentilmente enquanto batia, de forma insistente, na tecla que falava sobre a importância de se autoafirmar. Era aquela a reivindicação sobre uma forma outra de nomear. Era política. Na última noite daquele congresso, ele, brincalhão que era, rifou uma saia amarela. Uma menina a ganhou. – De-vol-ve! De-vol-ve! De-vol-ve! Os estudantes pediam. Ela devolvia. Ele sorria.

Encontrei-o novamente em 2007, durante o Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual (Enuds), que aconteceu em Goiânia. Relembramos as polêmicas e piadas dos tempos da Executiva. Militamos. Dançamos. Ao final do encontro foi feita uma homenagem às mães que estavam ao lado de seus filhos na luta contra a homofobia. Ele estava no palco ao lado da sua. Eram belos e sorriam. Ficou-me essa lembrança.

Em meados de 2009, durante o Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação (Enecom), em Fortaleza, tive como tarefa a elaboração de um material que fizesse o resgate da história do movimento pró-saia. Como ele havia sido seu criador, conversamos por telefone. – Não, não foi nada disso. Disseram que sofri preconceito, que fui espancado. Isso nunca aconteceu. Essa história virou lenda urbana no movimento estudantil! – contava sorrindo.

Tive que refazer todo texto. No dia seguinte, o material circulou. A turma ficou desapontada com a revelação da verdadeira história! Depois acharam graça e isso contribuiu para fazer a discussão entre os estudantes. Ainda que não tivesse sido naquele caso específico, o preconceito contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais seguia e segue sendo manifestado por meio de uma violência que nem sempre era/é simbólica, mas também física.

Na época, interessava-nos resgatar o sentido do movimento porque incomodava-nos o uso, a nosso ver esvaziado, que alguns estudantes faziam das saias durante os encontros de comunicação. Parecia menos político, mais carnaval. – Olha, vivemos em uma sociedade tão machista que, se formos pensar bem, só o fato de um homem usar saia, mesmo no carnaval, já é representativo de uma ruptura, ainda que seja pequena. Dizia.

Há algumas semanas eu lia Terça-feira Gorda, de Caio Fernando Abreu. Terminava assim: “E finalmente a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos”. Chegou o domingo e no final da tarde tive uma notícia muito ruim: Lucas Fortuna foi encontrado morto em uma praia pernambucana. Espancado, esfaqueado, despido. Carteira de identidade rasgada sobre o corpo. E nem era carnaval.

Aquilo foi feito um tapa na cara da gente que vive dizendo que não sofre a violência física que a homofobia imprime com muito mais força, claro, em quem está nas periferias, em quem não pode transitar pelos lugares onde se pode amar, onde se pode ser. O Brasil é o país que mais mata homossexuais. Ao mesmo tempo, as escassas iniciativas para combater o preconceito são vetadas, e a homofobia sequer é considerada crime.

Em uma sociedade em que as pessoas e suas relações são transformadas em coisas, em que as diferenças de gênero, raça e sexualidade são utilizadas para intensificar ainda mais a exploração, não se posicionar contra essa mesma sociedade e toda forma de opressão que a sustenta, é também um crime. Quantos outros como Lucas Fortuna precisarão ter a vida violentamente tomada para que uma multidão siga em sua confortável ilusão?

Paro e penso: poderia ter sido eu, tu, teu filho, irmão, primo, sobrinho, tio, companheiro, amigo, amor. Como não se posicionar? Juntos somos tantos. Somos implicação, afetação, potência de luta. Somos pessoas: corpo e sentimentos. Talvez ele nem tivesse a dimensão do quão importante foi aquele primeiro contato para mim, do quanto aquela postura, por mais minoritária que pudesse parecer, me faria mais tarde refletir sobre tantas coisas.

Então, para que não restem dúvidas e para que com outros possamos um dia por fim a tudo que causa essa ressaca absurda que parece não querer passar, vou terminar dizendo assim: meu nome é Camila Chaves, sou Relações Públicas, sou militante, sou bissexual e luto.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Encontros, terrorismos poéticos e outros cinquentas

para Fernanda Reis que hoje foi para a Bahia

Das rebeliões organizadas ainda no maternal, duas são as lições que, aconteça o que acontecer, jamais podem ser esquecidas: 1) as mamadeiras de vidro são preferidas porque podem dar bons coquetéis incendiários; e 2) há encontros que são ruins, outros que são bons e uns terceiros, ainda, que são muito bons. Todos eles independem de tempo e espaço.

O que tento dizer é que não importa se quando ela e eu nos conhecemos, ainda usávamos fraldas e queimávamos carrinhos de cachorro quente em plena luz do dia; ou se, dadas as balas de borracha e spray de pimenta nos olhos da vida, só nos reencontraríamos anos depois na escuridão dos porões da ditadura graças a um cigarro aceso por um bandido.

Dos encontros muito bons, devo dizer, esses são raríssimos! Há até pesquisa que diga que a cada cinquenta, somente um corre o risco de sê-lo. Repito, pois faço questão: trata-se de um risco, não de uma garantia. Mas, mesmo raros, é fato, existem. Sejamos otimistas: procuremos em garagem de sindicato, em sede de partido ou apartamento no terceiro andar.

Abre a porta: as paredes têm sotaques, a geladeira tem bilhetes e a sala um sofá da cor de lutar; na TV, intrigas horripilantes e desfiles hilários; nas conversas, cumplicidades cochichadas e confissões nem sempre centralizadas; se é cozinha, é mistura de sabores e gosto bom de companhia: são peças soltas pelo chão, é pimenteira na varanda, são abraços de bom dia.

Os encontros muito bons nos preenchem, nos deslocam, mobilizam. São crises de riso, reflexões ao acaso e saudades agudas se o assunto for despedida. Obrigada, por ter cuidado de mim quando precisei, por ter confiado algumas opiniões, por ter partilhado teus planos de vida. Agradeço-te por ter sido alegria, camaradagem, companhia.

Um dia, quem sabe, contarão sobre esse encontro acontecido em outras terras, mas enquanto não contam, vou contando assim. Me despeço de ti com o coração já apertado da ausência, mas simultaneamente feliz por saber que se trata de um projeto. Te desejo felicidade, bons encontros e poesia. Mas, não demora e volta qualquer dia, porque a gente te espera para jantar.

Com carinho,
 
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