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domingo, 27 de junho de 2010

Castigos para os que virão

Velhos tempos eram aqueles ao sabor da pimenta malagueta que temperava a boca depois de um pedaço de palavrão, porque escutas biônicas e leitores de pensamentos são itens de série que historicamente acompanham as mães desde suas saídas das maternidades.

Naquela época, ficar sozinho no quarto, não assistir televisão ou ter que abraçar alguém com quem havíamos acabado de brigar, eram as mais severas entre todas as punições, porque implicavam em não poder brincar na rua ou perder os episódios inéditos daquele desenho preferido.

Hoje as necessidades mudaram e aquilo que era castigo já não mais é. As crianças já compram salgadinhos ou mesmo chicletes com sabor de pimenta e tortura é ter que assistir televisão ou não dispor de um espaço onde se possa ficar sozinho para exercer o direito à privacidade.

Os tempos são mesmo outros, e uma vez que bater não educa e que conversar nem sempre basta, daqui para frente já podemos pensar em termos de castigos para aqueles que ainda virão. E foi exatamente isto o que Seane Melo e eu nos pusemos a fazer e, dentre tantas ideias, seguem algumas:

Mãe
Menina(o), vá para a rua brincar com os meninos, essa semana tu estás de castigo, nada de Twitter, Orkut ou Facebook.


Filha(o)
E os meus amigos?


Mãe
Ora! É por conta dessa tua mau criação que passada esta semana tu terás somente 1600 caracteres para escrever recados. E se quiseres!


Filha(o)
Mas isso não dá nem pra...


Mãe
Mas, sem mais! Vou desinstalar esse emulador do PC, se quiseres jogar vais ter que usar o Playstation!


Filha(o)
Não, mamãe, Playstation, não!
Prometo que me comporto.

domingo, 18 de maio de 2008

68 para ser sentido

Por mais que eu tivesse tentado, nunca consegui explicar com palavras determinados sentimentos. Um frio te toma as pernas, ganha o alto da barriga e enquanto a boca seca, não mais saliva, os olhos se umedecem com lágrimas e os pêlos dos braços e da nuca suspendem como se quisessem saltar do corpo.
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Era assim quando criança: bastava ouvir uma música, assistir um filme ou ler algo relacionado às lutas populares ou revoluções, que todos aqueles sentimentos me vinham com uma força cada vez mais crescente. Foi então quando comecei a me questionar sobre a origem da força e da vontade que algumas pessoas têm em defender determinadas causas.
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Entre todas as possíveis respostas que meus pensamentos trouxeram sobre este questionamento, decidi ficar com aquela que, pelo menos aparentemente, pode ser vista por alguns como a mais simples ou mesmo a mais infantil de todas elas: a da pequena semente.
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Acredito que cada pessoa tenha dentro de si um montão de sementinhas. Estas, por sua vez, precisam tomar sol, serem regadas e bem cuidadas para que cresçam fortes. E um-montão-de-sementinhas são, pelo menos em minha cabeça, uma porção de sentimentos. Por que é então que com o sentimento revolucionário as coisas seriam diferentes? Não tem mesmo por que.
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Manifestações, atos de coragem e de luta por uma coletividade seriam então o sol, a água e os cuidados dessa semente que alguns trazem desde cedo dentro de si, como aqueles jovens estudantes que, há 40 anos, sem distinção de etnias, culturas, idade ou classe, tomaram as ruas do mundo para lutar por direitos, levando o país a uma greve geral.
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O maio, que por muitos é somente lembrado como o mês das queridas mães ou das bonitas noivas, foi também em 1968, um mês marcado por lutas em prol de transformações sociais, culturais e políticas. Foi o mês em que em uma única manhã, mais de um milhão de pessoas foram às ruas de Paris em solidariedade a um movimento estudantil combatente e reprimido por forças policiais francesas.
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Quarenta anos depois, a mesma reforma do ensino superior que serviu para mobilizar os estudantes do maio francês, foi o que pareceu despertar o movimento estudantil brasileiro da inércia vivida nos últimos anos. A diferença? Hoje, somos poucos, fragmentados e muitos até mesmo descrentes de que uma revolução seja realmente possível. Eu sonho e acredito em uma revolução. Precisava falar sobre isso hoje. Gostaria que o maio de 68 pudesse não somente ser lembrado, mas sim, de alguma forma sentido.
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Coincidência ou não, no início do ano em que a mais bonita das revoluções completa suas bodas de rubi, foi quando a sementinha que carrego, desde a infância, dentro do meu coração vermelho, pôde receber a sua maior dose de sol, água e cuidados. Mas, essa parte deixo para contar em outra oportunidade. Por enquanto, termino com a sensação de que realmente não sei falar de sentimentos e com uma frase que penso que expressa muito o que sinto.

"Eu tenho a paixão das causas difíceis, quase perdidas, quase desesperadas." Daniel Bensaïd

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A revolta dos cravos

Sempre gostei mais de Matemática que História. Pensando bem, não sei se sempre, mas se faço referência à minha saudosa época de estudante de Ensino Fundamental, esta primeira afirmação é muito pertinente. Fui eu quem, na 8ª série, em meus primeiros dias de aula naquela nova escola, tomada por uma falta de noção ou, quem sabe, por um excesso de sinceridade, levantei a mão quando aquele professor bonito e tão queridinho pela maioria das estudantes, perguntou se havia alguém na turma que não gostava daquela matéria que ele lecionaria.
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Enquanto meus pensamentos me traziam essas lembranças históricas e meus dedos folheavam minha agenda colorida, descobri que hoje, 25 de abril, comemora-se a Revolução dos Cravos. Parei um segundo e tentei tirar, ainda da lembrança, o que poderia ter sido esse marco. Sabia que não tinha faltado a aula, até mesmo porque eu era CDF demais para fazer isso, mas o fato é que realmente os arquivos da minha mente pareciam indicar que “a página não pode ser exibida”.
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E como imaginar, na maioria das vezes, pode ser bem mais divertido que pesquisar, coloquei-me nesse “dificílimo”, “cansativo”, “doloroso” e, por que não dizer “árduo”, exercício. Opa! Então vamos lá. Recebi uma prova, na verdade, uma folha quase toda em branco, que em seu topo diz o seguinte: “Discorra sobre a Revolução dos Cravos”. Gente, como é que alguém fala isso assim, de forma tão fria, tão direta e sem fragmentos ou figurinhas que, ao serem xerocadas, ganham tons de psicodelia? Vamos lá.
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Debaixo de uma sacada localizada na pacata Vila do Amendoim, distante cerca de 357 km da capital do monárquico país cujo nome prefiro não citar por uma questão de preservação das identidades envolvidas, o Cravo brigou com a Rosa. O fato de o Cravo ter saído ferido e sua companheira despedaçada, nem de longe é motivo para especulações que levem a crer que os dois tenham se agredido já que o casal era conhecido em campos e canteiros por pregar o combate às opressões e a resistência pacífica como forma de luta.
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O Cravo e a Rosa eram de oposição e, o que pouca gente sabe, na verdade, é que essa história toda de briga entre os dois teve início por conta daquela rainha pra-lá-de-fofoqueira que, além de ser a dona da moradia em que ficava a sacada que ficou conhecida em canções infantis do mundo inteiro, era também dona da maior rede de comunicação daquela época. Logo, muito esperta, viu naquela que era uma conversa em tom de revolta entre o casal, seguida de um desabamento, um prato cheio para o espetáculo e, conseqüentemente, grandes níveis de audiência. E parece que deu certo, pois nas floriculturas da região ouvia-se um “zumzumzum” e, acredite, não eram das abelhas.
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Imaginei algumas outras milhões de coisas, mas como pesquisar é preciso, também, acabei descobrindo por pura curiosidade que esta revolta, também conhecida como O Dia D (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver), ocorreu em 1974 e significou o fim da ditadura de Salazar, em Portugal.
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Portugal vivia em regime ditatorial desde 1926 e, com a Revolta dos Cravos, liderada por soldados revoltosos, conseguiu por fim na censura e na polícia política que perseguia e reprimia todos aqueles que fizessem oposição ao regime, libertar presos políticos, fazer com que sindicatos pudessem atuar de forma livre e os partidos fossem legalizados e, um ano depois, em 1975, a realização das primeiras eleições livres para a Assembléia Constituinte.
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Na manhã do dia do golpe, muitas pessoas foram às ruas em solidariedade aos soldados. Uma das versões contadas é de que nesta manhã, uma florista contratada para levar cravos para a abertura de um hotel fora vista por um dos soldados que teria então pegado um dos cravos e posto em sua espingarda. A florista, distribuiu seus cravos vermelhos aos demais soldados que, rapidamente, puseram em suas espingardas, também.
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Não entendo por que nenhum professor ou professora nunca me pediram para discorrer sobre a Revolta dos Cravos, aquela que ficou conhecida como a revolução que trouxe liberdade ao povo português. Outra coisa que também não entendo, é como alguém que, de tão tímida tinha vergonha até mesmo de puxar a cordinha do ônibus em pedido de parada, pôde levantar a mão naquele primeiro dia de aula.

sábado, 15 de março de 2008

O contrário de chocolate

Confesso que tenho um sentimento que ainda não sei, de forma precisa, que nome deveria lhe dar. Tudo o que sei é que vivo com a constante impressão de que por pouco, por muito pouco, mesmo, não fui eu a pessoa quem falou pela primeira vez aquela frase tão brilhante.
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Seguindo este pensamento, devo dizer que tenho a leve impressão que, se alguma vez na vida tivesse ido à Pedreiras, interior do Maranhão onde, segundo relatos de estudantes universitários, os ciclistas param no sinal de trânsito ao lado dos carros, certamente poderia ter tido a honra de falar pela primeira vez que “a educação de Pedreiras é igual a da China”.
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Na verdade, para ser a pessoa a falar pela primeira vez alguma frase brilhante não basta apenas ser criativo, é preciso ter oportunidade. Sei que isso parece uma daquelas frases horríveis de livros de auto-ajuda ou de um daqueles palestrantes que falam sobre mercado de trabalho e cursos profissionalizantes e que no final acrescentam algo do tipo, “porque você é um vencedor!”, mas, nesse caso é bem verdade.
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Por exemplo, você pode ser criativo, militar na esquerda, ser maior de idade e ter 1m68 de altura, mas se tiver voz de criança, pode ter certeza que a tal oportunidade é anulada e a tua pequena voz dificilmente será ouvida em uma das badaladas rodas de conversa de estudantes universitários. Por isso nunca consegui explicar o porquê eu sou míope e ando sem óculos ou porque comecei a questionar a Democracia após ler Oscar Wild e que relação isso tem com o Bolsa Família.
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Segundo Wild em A alma do homem sob o socialismo, a democracia, apesar de despertar grandes esperanças, “significa simplesmente o esmagamento do povo, pelo povo e para o povo”. Concordo com ele e acrescentaria ainda que isso se dá por conta de uma educação que cada vez mais conduz para um conformismo quando deveria causar inquietação, permitir questionamentos. E a relação que isso tem com o Bolsa Família? Pergunte ao povo se o programa é bom ou ruim.
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Bom, o Oscar Wild foi para ilustrar. É consenso que determinadas discussões são extremamente inoportunas quando estamos em badaladas-rodas-de-conversa-de-estudantes-universitários criando frases brilhantes enquanto a hora da aula não chega. O “tudo tem sua hora”, eu cresci ouvindo mamãe dizer. Tudo bem, tudo bem, ela falava isso quando eu pedia alguma coisa que ela não tinha dinheiro para comprar, mas acabou virando lição de vida.
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E assim, as pessoas não costumam ouvir de mim frases brilhantes, no máximo elas ouvem pérolas ou misturas brilhantes de ditos populares, como por exemplo, “ela fez tudo de ‘divina’ e espontânea vontade” ou “ele já queria puxar ‘farinha’ para a brasa dele”. Tudo bem, também, que isso não é nada como “a educação de Pedreiras é igual a da China”, mas acredito que foram graças à pérolas como essas e ao fato de eu ser criativa, militar na esquerda, ser maior de idade e ter 1m68 de altura, que meu querido amigo Lutero atribuiu a mim a autoria da mais brilhante de todas as frases: “quando eu era criança eu achava que o contrário de chocolate era morango”.
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O triste é que eu nunca disse isso. Embora tivesse querido, e muito. Ele sorriu, eu sorri, mas não pude suportar. Precisava revelar a ele que a frase não era minha, embora ele tivesse certeza disso. Lutero achava que eu a tivesse dito pela primeira vez. Já eu achava que poderia ter sido Paula. Só sei que não fui eu, nem Paula, nem Lutero. Acho que podemos acreditar que “quando eu era criança eu achava que o contrário de chocolate era morango” foi uma frase criada a partir de nossos imaginários coletivos tão postos em evidência nas inúmeras e badaladas-rodas-de-conversa-de-estudantes-universitários.

domingo, 9 de março de 2008

Meninos que dão em árvore

Por mais que eu sempre tivesse querido, biologicamente falando, nunca tive um irmão. Como eu demorei bastante para falar, o meu forte mesmo era observar e, se fosse algo viável de ser imitado, falando aqui do ponto de vista da discrição, eu o faria. Foi assim que, quando criança, me peguei algumas vezes tentando andar como papai ou pior, me pegaram com a mão na lâmina de barbear e o rosto cheio de creme a um passo de cometer o meu primeiro ato infracional. Uma verdadeira delinqüente!
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E foi assim que eu cresci. Em meio a um monte de meninos correndo nas ruas da periferia do São Francisco. Éramos muitos. Como a rua era fechada, a concentração era grande e o barulho em frente às casas, maior ainda. Na mesma idade que eu havia somente uma menina, isso fazia com que a regra para nós duas fosse bem clara: ou passaríamos o dia inteiro brincando de preparar comidinhas imaginárias, ou nos juntaríamos aqueles mais de dez meninos loucos e teríamos mil e uma opções de brincadeiras diárias! Uhu!
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Fazer uma decisão dessas não era tão simples como pode parecer. A começar pela educação que tínhamos e que, ainda hoje, temos em nossas escolas. Desde crianças não somos estimulados a trabalhar o corpo e a nos preparar fisicamente com um discurso cada vez mais forte de que isto acontece por conta de uma “questão cultural”, afinal, estamos na cidade, não? Os meninos ainda conseguem subverter esta lógica quando, no horário do recreio, correm, sobem nas mesas, se penduram nas escadas e liberam toda sua energia. Para mentes conservadoras, é natural que os meninos se comportem desta forma, mas se há ali uma mudança de gênero e a condição agora é cabida às meninas, pode ter certeza de que a repressão se fará.
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Mas, quem se importa? Minha tia se importava, e muito. “Camila, cadê tua mãe?”, perguntava ela sempre que me via na rua feliz da vida brincando com um monte de meninos. Ah, e vale lembrar que feliz mesmo quando o dedão do pé estava arrebentado porque, naquela época a rua não tinha asfaltamento. Mas, mais legal mesmo foi a cara dela ao ver, em meio às minhas adoráveis pecinhas de lego lego, alguns carrinhos. Ora, eu só tinha uma amiga e nós havíamos decidido por consenso que brincar com os meninos era mil e uma vezes mais divertido, ter barbies naquela situação não era nada inteligente.
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Mas eu não me importava. Tinha mais coisas com o que me preocupar, afinal, precisávamos “deliberar” em alguns calorosos minutos de discussões e brigas, do que iríamos brincar à tarde, na hora do “vale à pena ver de novo”, se seria de “com licença, Beth”, “rouba bandeira”, “polícia e ladrão”, “quem chega primeiro”, “remaninho, remaninho”, “arame e lego”, “passinho ou gol” ou de alguma outra proposta que surgisse no momento para apimentar ainda mais a discussão.

domingo, 28 de outubro de 2007

Educação e diversidade em cores, buzinas e movimento

Você acorda. Toma um banho e um café para despertar. Dá uma rápida lida no jornal ou assiste ao noticiário na TV e sai para começar seu dia. No caminho, a pressa, o trânsito ou as horas que não se deixa desperdiçar, muitas vezes não lhe permite observar detalhes, nem sempre pequenos, como, por exemplo, do quanto diferente somos uns dos outros.

São formas de pensar, de vestir, de agir. São jeitos, cores, culturas, habilidades ou limitações. Características que fazem de cada um humano, único. Daí, ainda no caminho para a escola ou para o trabalho, o sinal coloca-se vermelho e uma fila de carros e ônibus, todos lotados, pára parecendo esperar a continuidade de tudo.

Você pensa rápido. Observa a diversidade, mas tudo muito vagamente, afinal, o sinal vai abrir e as coisas voltarão a seu movimento. E existe pressa. Muita! O sinal põe-se verde novamente, mas, por algum motivo que você ainda não sabe qual é, surpreendentemente, carros e ônibus continuam parados.

“Puxa vida! Me atrasarei!”, você pode imaginar. Mas, não encontrando outra saída, põe-se novamente naquele pensar interrompido por um verde de sinal. “...somos todos tão diferentes...”. Mas será que você pensa, por exemplo, sobre o seu papel e o de instituições diante de toda essa diferença?

Somos desde pequenos educados, por nossas famílias ou mesmo pela escola, a repetir padrões que, vezes por outra, parecem esquecer as diferenças existentes entre as pessoas e fazer com que nós acreditemos em uma igualdade inexistente, em um padrão. Assim, quando diante de situações que fogem destes modelos pré-fabricados, agimos conforme aquilo que, lamentavelmente, nos fora ensinado: um simples “tolerar”, mas nunca o conviver, de fato, com tamanha diversidade.

É ainda reflexo da educação que recebemos a não existência da diversidade nas concepções de “habilidades” ou “limitações”. Não somos levados a perceber, por exemplo, que por sermos em nossas individualidades tão diferentes uns dos outros, o que pode ser uma limitação para mim pode perfeitamente caracterizar a sua maior habilidade.

É nesse sentido que a Escola se faz importante com o seu papel de educar, mas um educar fundamentado em novos conceitos, um educar que valorize a diversidade e possua características como a interdisciplinaridade, contextualização, democratização, pertinência e relevância social, em outras palavras, um educar verdadeiramente inclusivo. Sinal verde... sinal amarelo... são tantas outras cores além daquelas três que você já nem percebe mais as cores do sinal...

Educar de forma inclusiva significa reconhecer em toda criança, a capacidade de aprender. No Brasil, organizações públicas e privadas têm trabalhado com a Educação Inclusiva como um processo que amplia a participação de todos os estudantes em estabelecimentos de ensino.

Atitudes assim parecem soar como algumas tímidas buzinas que lhe levam a despertar... “Quem buzina?” Você se pergunta... e ao mesmo tempo começa a perceber, por exemplo, que as diferenças estão por toda parte: entre os carros e ônibus que começam lentamente a entrar em movimento ou entre as pessoas que caminham para algum lugar que nem sempre se sabe qual é. Mas, mesmo estando em tantos lugares, elas não são respeitadas.

Nesse sentido, pensar em um modelo de educação que compreenda a diferença como característica fundamental para que cada um de nós sejamos considerados seres humanos faz de nós mais receptivos e livres para a construção de conhecimentos. Fazer do aprender a conviver e, principalmente a respeitar o outro, um exercício diário possibilita a correção de uma situação real de discriminação, além de ser um importante passo e para a construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva.

Buzinas! Buzinas! E mais buzinas! Então, depois de muito pensar... você olha para fora da janela e avista uma moça que veste uma camiseta com uma charge do educador Paulo Freire e ao lado dela os seguintes dizeres: “Se educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda.” Você pensa novamente. Já tem gente fazendo, apostando, trabalhando. E você, o que vai fazer? O sinal abriu novamente e desta vez carros e ônibus correm em busca do tempo perdido. Vamos nessa?
 
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