domingo, 20 de abril de 2014

Querida Formiga

Desde o dia em que te vi devorar um tablete de caldo lá na cozinha, percebi que algo não estava muito bem. Compreendo que, quando em coletividade, podemos até cometer atos que jamais nos passariam caso vivêssemos uma vida de solidão. Mas as ações de vandalismo realizadas durante as “festinhas” diárias que acontecem em minha casa sem o meu consentimento, confesso: não consigo compreender.

Da última vez, tive que passar por um constrangimento imenso! Isso porque as tuas amigas não só tiveram a audácia de me retirar da cama enquanto eu dormia, como abriram a porta da sala e me puseram do lado de fora do meu próprio apartamento! O danado foi ter que acordar com o sol na cara e ainda ter que explicar para a vizinha o que era que eu estava fazendo abraçada com a grade do portão dela.

Mas, sem ressentimentos. E que fique claro: eu não tenho nada contra o fato de tu seres formiga. Eu até tenho amigas que são. Por isso te escrevi esta carta em tom tão preocupado. Sendo assim, quando receber, me avisa e aparece aqui em casa para a gente tomar um café e conversar sobre a vida.

Prometo que ponho bastante açúcar para não ter que te ver sucumbir novamente a um salgado tablete de caldo.

Com afeto,
Camila Chaves.


Texto publicado no Blog quando receber, me avisa em 13 de abril de 2014.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Desentendimentos

Passou pela porta com o cigarro entre os dedos e parou próximo à janela da sala, onde se encostou. Organizou a carteira e o isqueiro, observou tudo em volta e manifestou algumas poucas palavras. Retomava-se assim nosso diálogo que, após tempos em desuso, seguia como de costume, cheio de conflitos e identificações.

– Gostei da mudança. Acho que vou dar um presente para a casa.
- É? O quê?
- Minha mãe...

Parou, levou o cigarro até a boca, fez uma conchinha com uma das mãos, riscou o isqueiro e tragou. Mas tragou como quem respira após uma longa série de nado submerso ou como quem suspira disfarçadamente. Fez tudo isso enquanto me ouvia suplicar por informações, exclamar um milhão de coisas e questionar suas ideias absurdas. E tão somente então, aliviada, completou:

– ...faz uns quadros ótimos de tapeçaria.

Passeio Público

Um passeio público é assim: tu escreves em um papel de forma livre, sem critérios sobre fonte, recuo ou espaçamento. A única coisa que se pede é que sejam feitas, no mínimo, três manifestações. Por sugestão, essas podem ser no flanelógrafo do prédio, na padaria da esquina e no mercadinho de dona menina. Pede-se também que a manifestação seja feita com, no mínimo, trinta minutos de antecedência. Se, durante esse período, ninguém se revelar contra a ação, pronto. Tudo feito. Do contrário, não há passeio público. O que não quer dizer também que não há passeio. Mesmo porque nem todo passeio precisa ser público. Ele pode ser escondido, uma passeada oculta, um role clandestino ou, simplesmente, uma fugidinha. 

- Comunicamos a quem possa interessar que estamos indo passear.

domingo, 8 de setembro de 2013

Mais um dia de lutas

A situação está insustentável. Já não se pode ir às ruas, entoar palavras de ordens ou empunhar faixas que falem sobre nossas justas reivindicações. Há helicóptero sobre nossas cabeças. Há tropas e mais tropas à nossa frente e nas laterais. Não existe diálogo, nem vontade nenhuma de fazê-lo. Decerto, nunca existiu. Os governos não investem em saúde, transporte ou educação, mas equipam muito bem seus homens para garantir uma forte repressão a nós que nada mais temos além dos nossos sonhos e nossa disposição. É o estampido das bombas, o gosto do gás que fica na boca, o ardor da pimenta que salta aos olhos e a cena dos que ficaram caídos, feridos no chão. São também as lembranças dos que correram à procura de abrigo, das mãos geladas da companheira de outra sigla que chama teu nome, e do reencontro entre os nossos camaradas em meio àquela imensa confusão. Vivemos um novo momento: mais pessoas questionam, contestam, resistem. É preciso seguir nas ruas. Mas é preciso sobretudo fortalecer ferramentas que apontem para além dessas mobilizações, que nos fortaleça organizativamente, porque os que nos combatem, já deram inúmeras mostras, estão bastante bem organizados.

Reflexões pós 7 de setembro, em Fortaleza - CE.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Sobre o que arde mais


Ardem os olhos sob efeito das bombas de gás lacrimogêneo jogadas pelo estado repressor e, tanto quanto eles, ardem também os nossos rostos diante do conservadorismo e tantas incompreensões. Exigir que não se manifestem agora aqueles que estiveram encampando uma série de lutas enquanto uma multidão estava adormecida, faz parte tanto de um grande jogo político da direita, como de uma imensa contradição da democracia tão reivindicada por aquelas e aqueles mais honestos.

Ontem, na manifestação que levou dezenas de milhares às ruas de Fortaleza, enquanto a marcha era alvejada pela polícia militar com bombas e balas de borracha, havia um setor que dividia o movimento e incitava um grito de “fora partido”. Não somente nós do PSTU fomos obrigados a retirar nossas bandeiras para participar da marcha, centrais sindicais como a CSP Conlutas, entidades estudantis como a ANEL e movimentos sociais como o MST foram também impedidos de fazer o que há muito é parte do seu dia a dia.

Fomos xingados, ameaçados por força física, cercados por uma multidão. Compreendemos toda a descrença das brasileiras e brasileiros em relação à política partidária, sobretudo após toda traição petista ao longo de dez anos no governo. Mesmo assim, permanecemos firmes na marcha e firmes seguimos orgulhosos em mostrar nossa política e nossa organização. Nos organizamos, debatemos, militamos diariamente. Deixar de ir às ruas agora seria negar toda a história que a gente constrói cotidianamente.

Podem fazer arder os nossos olhos, os nossos rostos, podem até ligeiramente nos entristecer, mas, diante da nossa necessidade e do desejo ardente de transformar realmente as coisas, tudo isso acaba que nos fortalece e nos faz perceber o quão grande é o tamanho e quão ousada é a nossa tarefa. “Calo-me, espero, decifro. / As coisas talvez melhorem. / São tão fortes as coisas! Mas eu não sou as coisas e me revolto.” (Carlos Drummond, em É tempo de partido).
 
Copyright 2009 zine colorido
Convert By NewBloggerTemplates Wordpress by Wpthemesfree